OpenClaw, agentes de IA e o limite entre inovação real e encenação
- Leo Saldanha
- há 21 minutos
- 4 min de leitura
O projeto open source explodiu em popularidade, criou um ecossistema próprio e revelou tanto avanços concretos quanto exageros típicos da corrida por atenção em 2026.

Em poucas semanas, o OpenClaw saiu de um projeto técnico relativamente discreto para um dos repositórios mais populares do GitHub, ultrapassando a marca de 147 mil estrelas. O crescimento acelerado trouxe consigo um novo ciclo de promessas sobre “agentes autônomos”, uma enxurrada de projetos derivados e, inevitavelmente, uma boa dose de ruído.
Nota do editor: OpenClaw é um software open source que permite criar agentes de IA capazes de operar continuamente no computador de uma pessoa, com acesso a arquivos, mensagens e sistemas. Ele viralizou rapidamente e passou a ser tratado como sinal de uma nova era de “autonomia artificial”. É sobre essa promessa (e seus limites) que este texto trata.
O fenômeno lembra outros momentos recentes da tecnologia: algo relevante surge, a narrativa corre mais rápido que a compreensão e, no meio do caminho, inovação e teatro passam a dividir o mesmo palco.
O OpenClaw não se apresenta como consciência artificial nem como salto rumo à singularidade. Seu mérito está em algo mais concreto. Trata-se de um framework open source para agentes de IA persistentes, capazes de rodar continuamente, manter memória local e executar tarefas complexas sem esperar um comando a cada interação. Diferentemente de assistentes conversacionais tradicionais, esses agentes acordam sozinhos, seguem agendas, acessam arquivos, e-mails, calendários e sistemas externos.
Essa persistência é, de fato, uma mudança relevante. Ela aponta para um futuro de automação pessoal mais profunda, em que softwares deixam de ser ferramentas reativas e passam a atuar como operadores contínuos de fluxos digitais.
É também o ponto onde começam os mal-entendidos.
Boa parte do entusiasmo recente veio do ecossistema que se formou ao redor do projeto. O caso mais visível foi o Moltbook, uma rede social apresentada como um espaço onde apenas agentes de IA publicariam conteúdos, enquanto humanos observariam. Em poucos dias, surgiram debates filosóficos, notícias geradas por bots e até uma religião fictícia criada por agentes.
A ideia impressiona à primeira vista, mas perde força quando analisada com mais cuidado. Pesquisadores de segurança mostraram que, por trás de milhões de “agentes”, havia na prática dezenas de milhares de humanos controlando e orientando seus próprios bots. Em muitos casos, o que parecia autonomia era apenas mediação automatizada de interações humanas.
O investidor Balaji Srinivasan resumiu o problema de forma direta: muitas dessas plataformas se parecem mais com humanos conversando entre si por meio de bots do que com sociedades artificiais emergentes.
Isso não invalida o OpenClaw como tecnologia. Mas expõe uma confusão recorrente em 2026: confundir capacidade de execução automatizada com intencionalidade própria.
O segundo ponto ignorado no entusiasmo inicial envolve riscos reais. Agentes OpenClaw (Clawdbot) operam “como o usuário”, com permissões amplas para executar comandos, acessar dados sensíveis e interagir com sistemas externos. Sem cuidados rigorosos de segurança, isso significa entregar as chaves da própria vida digital a um software experimental.
Casos de extensões maliciosas, falhas de configuração e vazamento de dados em plataformas associadas ao ecossistema surgiram rapidamente. O episódio reforça uma velha máxima do setor: quando algo cresce rápido demais, a segurança quase sempre fica para depois.
Críticos como Gary Marcus têm chamado atenção para esse ponto. Não como rejeição à ideia de agentes persistentes, mas como alerta para o descompasso entre o poder dessas ferramentas e a maturidade de quem as adota.
O OpenClaw, portanto, não é fraude nem milagre. Ele sinaliza um movimento real em direção a agentes pessoais mais capazes, rodando fora do controle direto das grandes plataformas. Ao mesmo tempo, o barulho ao seu redor mostra como a narrativa sobre IA continua avançando mais rápido do que a compreensão prática de seus limites.
O que esse caso deixa claro é que a próxima fase da automação não será definida apenas por modelos mais inteligentes, mas por escolhas sobre quem controla, quem responde e quem assume o risco quando softwares passam a agir em nome das pessoas.
Entre o exagero e o ceticismo absoluto, o OpenClaw ocupa um espaço intermediário. Ele aponta para algo que veio para ficar, mas também revela como o excesso de espetáculo pode transformar sinais importantes em ruído difícil de decifrar.
Há ainda um ponto que ajuda a explicar parte da confusão em torno do OpenClaw. Para muitos usuários, qualquer ferramenta que “faz coisas sozinha” já é tratada como um agente de IA. Na prática, isso não é novidade. Modelos como o ChatGPT e o Claude já executam tarefas encadeadas, mantêm contexto, utilizam memória e interagem com serviços externos quando integrados a fluxos de trabalho. O próprio navegador Chrome acaba de anunciar recursos semelhantes, permitindo que a IA realize ações em nome do usuário.
O que muda no OpenClaw não é a existência de agentes, mas o grau de persistência e autonomia operacional fora de grandes plataformas centralizadas. Ainda assim, a ideia de agentes de IA não surge do nada em 2026. Ela vem sendo construída gradualmente, em camadas, muitas vezes com nomes diferentes para capacidades parecidas.
Isso ajuda a entender por que o hype cresce tão rápido. Quando conceitos antigos ganham uma nova embalagem e uma narrativa mais radical, a percepção de ruptura tende a ser exagerada. Agentes de IA são, sem dúvida, uma das grandes tendências do momento. Mas como em outras ondas recentes, a utilidade real costuma avançar em ritmo mais lento do que o discurso.
Separar avanço técnico de espetáculo narrativo segue sendo o principal desafio, especialmente quando ferramentas passam a agir em nome das pessoas.
Leituras críticas como essa fazem parte das discussões da comunidade Fotograf.IA + C.E.Foto, onde tecnologia e mercado são analisados sem hype e com foco em impacto real.
Para aprofundar esses temas em conversa direta, o próximo workshop presencial acontece em fevereiro, em São Paulo, com vagas limitadas e foco em decisões práticas em tempos de automação e IA.