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O que estou lendo: papel, tempo, cidade e autoria na fotografia

21 de ago.
3 min de leitura

Quatro leituras sobre zines, processos lentos, memória urbana e criação coletiva mostram caminhos da fotografia que não dependem da velocidade do feed.



Esta edição de O que estou lendo acabou formando uma combinação interessante. Em um momento em que boa parte da conversa sobre imagem passa por velocidade, inteligência artificial e produção em escala, estas leituras apontam para outra direção: materialidade, tempo, território e autoria.


1. Depois do feed, o papel

O IMS Paulista abre neste sábado, 22 de agosto, a exposição ZineZona, dedicada à produção contemporânea de zines fotográficos brasileiros.


A mostra parte do acervo da Biblioteca de Fotografia do IMS e olha especialmente para uma produção que ganhou força nas últimas décadas. O próprio instituto apresenta o zine como um contraponto material a um ambiente dominado pelos feeds. A abertura terá ainda uma conversa gratuita com os curadores e participantes sobre produção e circulação dessas publicações.


O que me interessa aqui é que impressão e publicação independente não aparecem simplesmente como nostalgia. O zine pode funcionar como objeto, forma de circulação e até como primeiro teste para um projeto fotográfico que depois ganha outros formatos.


2. Uma fotografia que leva seis meses para existir

Robert Charles Mann trabalha com solarigrafia, usando câmeras pinhole e exposições extremamente longas para registrar o deslocamento do sol.


Em alguns projetos, uma única fotografia permanece sendo formada durante meses.

É quase o extremo oposto da lógica atual da imagem: em vez de produzir, revisar e publicar imediatamente, o fotógrafo instala a câmera e aceita que tempo, clima e acaso participem do resultado.


Mais do que a técnica, me interessa essa diferença de escala. Ainda existem imagens cujo valor está justamente no processo que não pode ser acelerado.


3. São Paulo observada durante décadas

Uma matéria do Estadão apresenta trabalhos de Carlos Fadon Vicente que revisitam São Paulo por meio de fachadas, arquitetura e cenas noturnas registradas ao longo de décadas.


Aqui o interesse está menos em uma imagem isolada e mais no que acontece quando fotografar um lugar deixa de ser uma ação pontual e se transforma em acompanhamento.


O arquivo ganha valor com o tempo. A fotografia de uma cidade também passa a mostrar aquilo que já desapareceu, mudou de função ou deixou de chamar nossa atenção.


4. Quando quem é fotografado também participa da criação

A exposição digital Brasil que Cria reúne cerca de 50 fotografias produzidas a partir de um projeto com dez crianças da Nova Holanda, no Complexo da Maré.


As crianças participaram de oficinas, criaram desenhos e roupas e também tiveram participação na construção das imagens. No retrato final, cada uma decidiu como gostaria de ser fotografada.


É um detalhe importante porque muda a relação tradicional entre quem dirige a imagem e quem aparece nela. A fotografia entra como parte de um processo maior de criação, e não apenas como registro do resultado.


O projeto ainda terá um desdobramento impresso, com uma revista reunindo fotografias, bastidores e reflexões sobre o processo.


O que aproxima essas quatro leituras não é uma rejeição ao digital. É justamente o contrário: quando a imagem digital se torna dominante, outras formas de produzir, editar, guardar e fazer circular fotografias podem ganhar novas funções.


Um zine vira objeto. Uma exposição de seis meses transforma tempo em matéria fotográfica. Um arquivo passa a registrar as mudanças de uma cidade. E um ensaio pode redistribuir a autoria entre fotógrafo e fotografado.


Talvez exista bastante coisa acontecendo na fotografia justamente fora da corrida para produzir a próxima imagem.

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