O que estou lendo: Daido Moriyama, festivais pelo Brasil e as histórias por trás das imagens de Pelé
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Uma seleção sobre liberdade estética, memória, território, circulação da fotografia e formação profissional

Agosto costuma concentrar homenagens à fotografia. A seleção de hoje, porém, mostra algo mais interessante do que uma sequência de celebrações pelo Dia Mundial da Fotografia.
Há exposições ocupando museus, fachadas, ruas e diferentes espaços urbanos. Há um livro que devolve autoria e contexto a imagens históricas de Pelé. Há uma programação voltada à prática e ao negócio fotográfico. E há Daido Moriyama lembrando que uma imagem tecnicamente imperfeita pode atravessar décadas quando carrega visão, energia e alguma verdade sobre o seu tempo.
Daido Moriyama e a fotografia que não pede licença às regras
Uma exposição na Fundação Henri Cartier-Bresson, em Paris, reúne mais de 60 fotografias, documentos e publicações de Daido Moriyama.

Intitulada Love Letters to Photography, a mostra revisita uma obra marcada por granulação, desfoque, horizontes instáveis, contrastes agressivos e imagens feitas com rapidez pelas ruas.

Elementos que poderiam ser tratados como erros técnicos tornaram-se parte de uma linguagem ligada à ansiedade urbana e às transformações vividas pelo Japão no período pós-guerra. Moriyama direcionou sua câmera para lugares e pessoas que pareciam deixados para trás pelo processo acelerado de modernização do país.

Sua fotografia de um cão de rua, feita em 1971, talvez seja o exemplo mais conhecido. A imagem parece estourada, granulada e pouco controlada para uma leitura estritamente técnica. Ainda assim, tornou-se uma das fotografias mais reconhecíveis de sua trajetória.
A força do trabalho não vem da rejeição ingênua à técnica. Moriyama desenvolveu uma linguagem na qual a instabilidade formal participava daquilo que ele desejava expressar.
Em um momento no qual câmeras, smartphones, softwares e sistemas de inteligência artificial oferecem imagens cada vez mais limpas e previsíveis, sua obra recoloca uma pergunta importante: o que permanece quando a perfeição técnica se torna acessível a praticamente todos?
Caxias do Sul transforma a fotografia em ocupação coletiva
A Semana da Fotografia de Caxias do Sul acontece entre 18 e 23 de agosto, reunindo cerca de 80 fotógrafos brasileiros e estrangeiros e 37 instituições culturais e educacionais.
A programação gratuita inclui exposições, oficinas, leitura de portfólio, intervenções urbanas, encontros e atividades educativas distribuídas por diferentes espaços da cidade.
Um dos destaques é o Projetáço, marcado para 19 de agosto. Fotografias serão apresentadas simultaneamente em Caxias do Sul, Porto Alegre, Santa Maria, Pelotas, Rio Grande e outros pontos, a partir do tema “O território como extensão das relações humanas”.
A ação chama atenção pela forma como amplia a circulação da imagem. Nem todos os projetos selecionados conseguem ocupar uma exposição física, principalmente por causa dos custos de produção. As projeções e mostras digitais aparecem como alternativas para aumentar a presença dos trabalhos e conectar diferentes cidades.
Também há uma estrutura de seleção que considera conceito, coerência do discurso visual, profundidade temática e classificação indicativa. Isso ajuda a afastar a programação da lógica de uma comemoração genérica.
O evento trata a fotografia como pesquisa, linguagem contemporânea e forma de ocupação cultural. Ao mesmo tempo, revela um problema recorrente: produzir e circular uma exposição física ainda depende de recursos que muitos fotógrafos não possuem.

Campinas conecta fotografia, território e crise climática
A 16ª edição do Festival Hercule Florence começou em 5 de agosto e segue até o dia 23 em Campinas.
Com o tema Territórios em Transformação, a programação relaciona fotografia, emergência climática, ciência, patrimônio e mudanças na paisagem.
O festival ocupa o Sesc Campinas e outros espaços culturais da cidade com exposições, debates, oficinas, projeções, caminhadas fotográficas, performances e feira de publicações. Entre os convidados estão fotógrafos que documentam transformações ambientais e sociais em diferentes territórios brasileiros.
A presença do festival nesta seleção reforça um movimento que também aparece em Caxias do Sul e Brasília. A fotografia deixa de depender exclusivamente da parede de uma galeria e passa a funcionar como uma rede de encontros, intervenções e experiências coletivas.
Campinas acrescenta outra camada: a imagem como ferramenta para perceber transformações ambientais que muitas vezes são graduais, dispersas ou difíceis de traduzir apenas por dados.
O nome do festival também carrega um sentido histórico. Hercule Florence desenvolveu experiências pioneiras com processos fotográficos no Brasil durante o século XIX. Seu legado é retomado agora para discutir aquilo que a fotografia ainda pode revelar sobre o presente.
Em Brasília, a fotografia ganha a escala da cidade
A abertura da 11ª edição do Festival Mês da Fotografia transformou a cúpula do Museu Nacional da República em uma grande tela a céu aberto.
A projeção mapeada apresentou imagens da exposição Retrato de um Brasil Plural: Origem, Território e Diversidade, formada por 60 fotografias escolhidas entre mais de 800 inscrições enviadas por artistas de diferentes regiões do país.
A programação inclui palestras, oficinas, visitas mediadas e encontros com fotógrafos até 19 de agosto. A exposição permanece aberta à visitação até 4 de outubro.
A projeção sobre um edifício monumental desloca a fotografia do espaço expositivo tradicional e a coloca diante de quem atravessa a Esplanada dos Ministérios.
A escala pode aproximar novos públicos, embora exista sempre o risco de a imagem virar apenas um espetáculo visual passageiro. O desafio está em usar a monumentalidade para ampliar o encontro com a fotografia, e não somente para produzir impacto.
Brasília, Campinas e Caxias do Sul mostram diferentes maneiras de fazer a fotografia circular. Em vez de esperar que o público entre em uma galeria, os festivais levam as imagens até os espaços de convivência.
As histórias e os fotógrafos escondidos atrás das imagens de Pelé
O jornalista e escritor Sandro Moser lança em 16 de agosto, no Museu Paranaense, em Curitiba, o livro Foto e Bola: histórias de 10 fotografias de Pelé.
A publicação investiga os bastidores, os contextos e os autores de imagens que ajudaram a construir a figura pública do jogador.
A seleção reúne trabalhos de José Dias Herrera, Lemyr Martins, Walter Firmo, Evandro Teixeira, Luiz Carlos Barreto, Luís Paulo Machado, Otto Stupakoff, Sergio Jorge, Domício Pinheiro e Alberto Ferreira.
Pelé foi uma das pessoas mais fotografadas do século XX. Muitas dessas imagens se tornaram tão conhecidas que passaram a circular quase separadas de seus autores e das circunstâncias em que foram produzidas.
O livro tenta inverter esse apagamento. Em vez de usar a fotografia apenas como ilustração para uma biografia esportiva, investiga como os fotojornalistas participaram da construção de um personagem central da cultura brasileira.
É uma abordagem especialmente importante em um período no qual imagens históricas são copiadas, republicadas e recontextualizadas em grande velocidade.
Recuperar autoria não significa apenas acrescentar um crédito. Significa reconhecer decisões, acesso, riscos, circunstâncias e pontos de vista que fizeram aquela imagem existir.
A Alboom leva o mês da fotografia para dentro do fluxo profissional
Nem toda programação de agosto está voltada às exposições e à fotografia como expressão cultural.
O Mês da Fotografia Alboom segue até 27 de agosto com oito aulas gratuitas conduzidas por profissionais de segmentos como casamento, newborn, retratos, festas, fotografia sensual, gestantes e famílias.
A programação aborda temas ligados à prática profissional, incluindo atendimento, vendas, experiência do cliente, edição, posicionamento e construção de um negócio mais consistente.
Essa frente pode parecer menos simbólica do que uma projeção em um museu ou uma grande exposição. Ainda assim, ela toca em uma questão igualmente importante: a fotografia também precisa continuar sendo economicamente possível para quem trabalha com ela.
Há uma diferença entre celebrar a fotografia e fortalecer quem depende dela profissionalmente. As melhores iniciativas de agosto talvez sejam justamente aquelas que conseguem aproximar as duas dimensões.
O que conecta estas histórias
Daido Moriyama mostra que uma fotografia não precisa ser perfeita para ser potente.
Os festivais de Caxias do Sul, Campinas e Brasília mostram que a imagem pode ocupar ruas, edifícios, centros culturais e territórios inteiros.
O livro sobre Pelé devolve contexto e autoria a fotografias que ajudaram a construir uma memória coletiva.
A programação da Alboom lembra que, além de linguagem, memória e cultura, a fotografia continua sendo trabalho.
São caminhos diferentes, mas todos apontam para a mesma questão: a fotografia permanece relevante quando consegue circular, criar significado, preservar histórias e sustentar quem vive dela.
Acompanhar as mudanças também faz parte do trabalho
A fotografia está sendo transformada por novas tecnologias, novas formas de circulação, mudanças culturais e diferentes modelos de negócio.
Na comunidade Fotograf.IA Essencial, essas transformações são analisadas com profundidade e traduzidas para a realidade de quem trabalha com fotografia e imagem.
São masterclasses, análises, referências e discussões sobre inteligência artificial, mercado, posicionamento, ética e futuro profissional.



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