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Como se move um dos maiores acervos fotográficos do mundo

O Nederlands Fotomuseum conclui uma operação logística de alta complexidade para transferir 6,5 milhões de fotografias e negativos históricos para sua nova sede em Roterdã



Mover uma coleção fotográfica nacional não é apenas uma mudança de endereço. É uma operação que envolve risco físico, responsabilidade histórica e um nível de precisão técnica raramente visível ao público.


Foi exatamente esse o desafio enfrentado pelo Nederlands Fotomuseum, o museu nacional da fotografia da Holanda, ao iniciar a transferência de seu acervo de 6,5 milhões de fotografias, negativos e objetos para sua nova sede, o Pakhuis Santos, um antigo armazém portuário localizado na zona ribeirinha de Roterdã.


A operação começou numa manhã fria de novembro, quando caminhões especializados começaram a descarregar paletes contendo parte do que há de mais sensível no patrimônio visual do país. Dentro deles estavam negativos de vidro, folhas de contato, arquivos completos de mais de 175 fotógrafos e registros que documentam desde a arquitetura modernista holandesa até a vida nas antigas colônias, como o Suriname.


Entre os nomes preservados estão Ed van der Elsken, Erwin Olaf, Rineke Dijkstra, Ata Kandó e Augusta Curiel. Em muitos casos, os materiais não se limitam às imagens finais, mas incluem processos, anotações e negativos originais, elementos fundamentais para a compreensão histórica da fotografia.


Técnica, clima e tempo como fatores críticos

A responsabilidade pela transferência ficou a cargo da empresa holandesa Imming Logistics Fine Art, especializada no transporte de obras sensíveis, em conjunto com a equipe interna do museu. Cada detalhe foi planejado com antecedência.


Os negativos de vidro, por exemplo, foram posicionados nos veículos no sentido do deslocamento, reduzindo o impacto de freadas e vibrações. Os caminhões tiveram seus interiores mapeados em esquemas precisos para garantir estabilidade e distribuição de peso. A equipe acompanhou cada etapa do transporte durante um cronograma que se estendeu por seis semanas.


O clima foi outro fator decisivo. Chuva e variações bruscas de temperatura poderiam causar condensação e comprometer materiais fotográficos irreversíveis. “Se a regulação não for precisa, a mudança de temperatura pode gerar um acúmulo de umidade capaz de danificar os arquivos”, explica Martijn van den Broek, chefe de coleções do museu (em entrevista para Monocle).


Por isso, assim que descarregados, os materiais eram encaminhados diretamente para áreas de armazenamento definitivo, com controle rigoroso de temperatura e umidade. Unidades que abrigam negativos de filme, por exemplo, operam a cerca de 4 °C.


Preservar o invisível

Grande parte do valor dessa operação está justamente no que não é exposto ao público. Folhas de contato rabiscadas, negativos queimados propositalmente por artistas como Erwin Olaf, testes de enquadramento e experimentações técnicas fazem parte de um patrimônio que revela não apenas imagens, mas processos criativos.


“Fazemos um grande esforço para respeitar como esses fotógrafos gostariam que seu trabalho fosse apresentado e preservado”, afirma Van den Broek. Cada escolha de acondicionamento e posicionamento carrega implicações históricas.


A mudança também responde a uma necessidade prática. Desde a última transferência do acervo, em 2007, a coleção quase dobrou de tamanho e deve alcançar 7,5 milhões de itens até 2028, pressionando limites físicos e operacionais da antiga sede.


A preservação da fotografia, no entanto, não é apenas um desafio institucional. Ela também levanta questões sobre valor, decisão e responsabilidade em um cenário cada vez mais acelerado e tecnológico.


Esses temas estarão no centro do encontro presencial Fotografia Humana em Tempos de IA, no dia 25 de fevereiro, em São Paulo, reunindo fotógrafos e criadores para discutir o futuro da imagem para além da tecnologia.


Um edifício histórico para um acervo frágil

Construído entre 1901 e 1902, o Pakhuis Santos sobreviveu à Segunda Guerra Mundial e permaneceu décadas sem uso definido. Em 2023, o edifício foi adquirido pela fundação cultural Droom en Daad, que viabilizou sua adaptação para receber o museu.


A reforma preservou a estrutura de concreto e ferro fundido, ao mesmo tempo em que abriu o átrio central e incorporou soluções arquitetônicas para iluminação natural e controle ambiental. O resultado é um edifício que respira, mas mantém as condições necessárias para proteger um dos acervos fotográficos mais frágeis e valiosos do mundo.


Mais do que uma mudança

A abertura oficial do novo espaço está marcada para 7 de fevereiro e integra um movimento maior de revitalização da região do Rijnhaven, que também abriga o recém-inaugurado Fenix Museum of Migration.


Embora o acervo documente momentos decisivos da história holandesa, a mudança aponta para o futuro. “A fotografia é um registro insubstituível de quem somos”, afirma Van den Broek. “E justamente por ser tão frágil, sua preservação não é opcional. É uma necessidade.”


Para quem acompanha essas transformações de forma contínua, a comunidade Fotograf.IA + C.E.Foto reúne análises, encontros ao vivo e debates estratégicos sobre fotografia, mercado e o futuro da imagem.

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