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POV | Ponto de Vista - Espaços que abrem, arquivos que voltam, e o peso de estar presente

  • 12 de abr.
  • 5 min de leitura

Leitura estratégica dos movimentos que estão reposicionando a fotografia entre a cultura, o mercado e a tecnologia.



por Leo Saldanha


A semana produziu três camadas bem distintas de sinal. Uma geográfica: novos espaços físicos dedicados à fotografia abrindo de Salvador ao Rio, passando por São Paulo. Uma histórica: um arquivo de meio milhão de slides mostrando que até o mais reconhecível dos fotógrafos do século XX operava num registro que poucos conheciam. E uma tecnológica, que desta vez não é trata de IA gerando imagens, mas até onde a câmera chega quando alguém a leva até o limite do possível, literalmente.


Aqui está minha leitura.


1. A fotografia está abrindo espaço físico pelo Brasil

O Pelourinho, em Salvador, vai ganhar um novo centro de fotografia contemporânea num imóvel histórico na Rua do Bispo. O Pé de Cobra nasce de cinco anos de obra num edifício que funcionou como ponto de fiscalização urbana nas décadas de 1960 a 1990, o chamado "Rapa", onde havia detenções temporárias. A proposta é ressignificar o espaço através da fotografia contemporânea, com exposições, biblioteca especializada de 1.500 títulos e laboratório de preto e branco aberto ao público. O projeto tem nomes como Cristina de Middel, da Magnum Photos, e a argentina Julieta Lopresto na composição.


Reigão da Mooca, em foto de Alex Reipert: exposição vai até 23/05 (Alex Reipert/Divulgação)
Reigão da Mooca, em foto de Alex Reipert: exposição vai até 23/05 (Alex Reipert/Divulgação)


Em São Paulo, a Galeria O Jardim celebra a fotografia com uma exposição coletiva na Mooca.


No Rio, a Escola Brownie registrou a visita ao ateliê de Renan Cepeda em Santa Teresa — fotógrafo com formação no fotojornalismo que trabalha com infravermelho, light painting e filme analógico como ferramentas de um processo deliberadamente manual.



E no SESC Pompeia, Lita Cerqueira chega numa nova edição do projeto Ofício, que documenta saberes práticos e ofícios, fotografia como registro de trabalho, identidade e memória.


O que esses movimentos têm em comum não é tema nem linguagem: é a aposta no espaço físico como lugar de encontro e elaboração. Num momento em que o conteúdo fotográfico migrou quase inteiro para telas pequenas, criar espaços de pausa e contemplação é uma decisão editorial com consequências de mercado. Fotografia que se vê grande, em sala preparada, com contexto construído ao redor, cria uma relação diferente com o trabalho e com quem o fez.


2. Elliott Erwitt em cores: o que um arquivo de 500 mil slides revela sobre narrativa de marca

A editora teNeues lançou uma nova edição do livro Kolor, reunindo fotografias coloridas de Elliott Erwitt selecionadas de um arquivo de quase 500 mil slides Kodachrome. Imagens de Alfred Hitchcock, JFK, showgirls em Las Vegas, crianças brincando na Provence — todas com o humor característico de Erwitt, todas em cor, a maioria feita como trabalho comercial para revistas e anunciantes.

California, USA 1956 © Elliott Erwitt
California, USA 1956 © Elliott Erwitt

O paradoxo da história: Erwitt é universalmente associado ao preto e branco, mas fotografou em cor durante décadas. A associação tão forte com um único registro obscureceu um corpo de trabalho extenso e igualmente sofisticado. O próprio Erwitt explicou a lógica de seus trabalhos de encomenda: aceitava publicidade para financiar o que realmente queria fazer... a fotografia de rua com a Leica, em preto e branco, que se tornou seu legado.


Para o fotógrafo que pensa em negócio, essa história tem uma camada que vale atenção. Erwitt construiu uma identidade tão forte num registro que trabalhos em outro registro simplesmente não se encaixavam na narrativa pública, mesmo sendo igualmente bons. É um caso extremo, mas a questão que levanta é real: o que a sua identidade de mercado deixa de mostrar? E o que isso custa ou ganha para o negócio?


3. O Artemis II produziu 10 mil fotos. Com 32 câmeras. Da Lua.

A missão completou o flyby lunar e o acervo de imagens já passa de 10 mil fotografias, feitas com 32 câmeras de formatos variados, Nikon D5 como câmera principal, o Z9 em teste, GoPros presas à estrutura externa, smartphones dos astronautas, câmeras científicas da NASA.

O artigo do Digital Camera World sobre por que a NASA escolheu um DSLR de dez anos como câmera primária sintetiza o argumento com precisão: confiabilidade comprovada em ambiente hostil de radiação, comportamento previsível, equipe que conhece o equipamento a fundo.


Mas o detalhe que me interessa desta semana não é o equipamento, mas sim o volume. Dez mil imagens da Lua. Pela perspectiva de quem fotografa eventos, retratos ou documentos no cotidiano, esse número é familiar. A diferença é que aqui cada frame é inédito do ponto de vista da posição geográfica: nenhuma câmera esteve ali desde 1972.


A fotografia está produzindo um arquivo histórico em tempo real, feito com câmeras que qualquer fotógrafo profissional reconheceria. Isso não muda nada de imediato na realidade do mercado brasileiro. Mas coloca em perspectiva a questão da presença: o que a câmera registra quando está no lugar certo, com a pessoa certa, no momento certo, continua sendo o argumento mais sólido que o mercado fotográfico tem.


4. O YouTube vai deixar criadores clonar sua voz e aparência

O YouTube anunciou o lançamento de avatares com IA que permitem que criadores clonem sua aparência e voz para produzir conteúdo sem aparecer fisicamente na frente da câmera. A iniciativa avança em meio a preocupações sobre deepfakes e consentimento. O mercado de vídeo está indo ativamente na direção de desacoplar a presença física do criador do conteúdo distribuído.

Para o fotógrafo que produz conteúdo educacional ou de autoridade (e que pensa em escala) essa é uma tendência que importa monitorar, menos pelo aspecto técnico e mais pelo que sinaliza sobre expectativa de audiência. Se o conteúdo em vídeo começar a ser produzido por clones, a pergunta sobre autenticidade vai se intensificar no outro lado: quem aparece de verdade, com câmera real, em tempo real, vai carregar um diferencial crescente de credibilidade.


5. Fotografia como presença no momento mais difícil

O Irish Examiner publicou uma reportagem sobre a NILMDTS Ireland — Now I Lay Me Down to Sleep, organização de fotógrafos voluntários que produzem retratos gratuitos para famílias que perderam bebês. A voluntária Michelle McCormack, ela própria mãe de uma bebê natimorta, explica por que o trabalho importa: a família quer lembrar cada momento de amor, não apenas de perda.

Coloco este item aqui sem tentar fazer dele um argumento de mercado. É fotografia no seu uso mais fundamental, preservar o que não pode ser recuperado. Em algum lugar entre a Lua e o Pelourinho, entre os slides de Erwitt e os avatares do YouTube, isso é o que fotografar pode significar: alguém decide aparecer com uma câmera num momento impossível, e o que fica disso não tem equivalente em nenhum formato gerado.


Para encerrar

Essa foi a leitura desta semana. Se você quer ir além da leitura do mercado e entender onde o seu negócio fotográfico está agora (posicionamento, diferenciação, monetização) os últimos dias da Leitura R.U.M.O. com agenda aberta até 15 de abril são a entrada mais direta para essa conversa.


E se você estiver em São Paulo, o encontro presencial do dia 5 de maio (Leitura de Mercado: Fotografia e Negócio na Era da IA)  é onde essa leitura estratégica vira discussão real, com quem está no mesmo mercado que você.


A Comunidade Fotograf.IA + C.E.Foto é onde isso acontece de forma contínua, semana a semana.


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