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Kodak hoje vende mais moda do que fotografia (e isso diz muito sobre o valor da imagem)

A marca que marcou gerações com filmes e câmeras se consolida como ícone cultural, enquanto a fotografia deixa de ser seu principal negócio.

Nova loja da Kodak em Hong Kong. Fotos: Airside
Nova loja da Kodak em Hong Kong. Fotos: Airside

Durante décadas, a Kodak foi sinônimo de fotografia. Filme, revelação, memória impressa. Hoje, essa associação permanece no imaginário coletivo, mas não reflete mais o centro do negócio da marca. Atualmente, a Kodak fatura mais com licenciamento, merchandising e moda do que com produtos fotográficos.


A abertura de uma loja pop-up da Kodak Apparel em Hong Kong, anunciada em janeiro, é mais um sinal claro dessa transformação.


Instalada em um espaço de 2.500 metros quadrados no bairro de Kai Tak, a loja funciona como um tributo visual ao universo da fotografia analógica. Cores vibrantes, referências a filmes 35mm, câmeras cenográficas, espelhos pensados para fotos e uma estética cuidadosamente construída para gerar imagens compartilháveis.

Mas quase nada ali tem relação direta com fotografar.



Quando a marca sobrevive ao produto

A Kodak Apparel é uma marca sul-coreana licenciada oficialmente pela Eastman Kodak. Ela vende roupas, acessórios e objetos que combinam estética vintage americana com streetwear asiático contemporâneo. Camisetas, jaquetas, bonés, bolsas e itens colecionáveis ocupam o espaço onde, décadas atrás, estariam filmes e câmeras.


A loja de Hong Kong acompanha simultaneamente o lançamento da coleção outono-inverno na Coreia do Sul e aposta em experiências visuais como cabines fotográficas no estilo coreano, brindes progressivos por valor de compra e objetos que reforçam a sensação de nostalgia.


A fotografia aparece como linguagem. Não como serviço.


Esse deslocamento não é acidental. Ele reflete um fenômeno mais amplo: marcas que perderam protagonismo tecnológico podem, ainda assim, manter enorme valor simbólico. No caso da Kodak, a imagem da marca se tornou maior do que o próprio ato de fotografar.


Loja pop up conta também com serviço de impressão: revelação analógica e foto na hora
Loja pop up conta também com serviço de impressão: revelação analógica e foto na hora

De fracasso corporativo a ícone vintage

Poucas marcas carregam um paradoxo tão forte quanto a Kodak. Ao mesmo tempo em que é frequentemente citada como exemplo clássico de fracasso estratégico diante da fotografia digital, também é uma das referências visuais mais reconhecíveis do século 20.


O nome Kodak virou verbo, meme, estética e hashtag. #35mm, #filmphotography e o imaginário analógico seguem vivos, especialmente entre gerações que nunca fotografaram com filme.


A empresa não domina mais a tecnologia que criou, mas continua ocupando espaço na cultura visual. E é justamente esse capital simbólico que sustenta iniciativas como a Kodak Apparel.


A fotografia, nesse contexto, deixa de ser produto e passa a ser repertório cultural.


Para quem vive da imagem, esse tipo de movimento ajuda a entender como valor, marca e significado se reorganizam quando a tecnologia deixa de ser o diferencial. Leituras como essa fazem parte das discussões recorrentes dentro da comunidade Fotograf.IA + C.E.Foto, onde fotografia, mercado e cultura visual são analisados sem fórmulas prontas.


O retrô como resposta à saturação visual

A ascensão da Kodak como marca de moda não acontece por acaso. Em um cenário dominado por imagens digitais abundantes, filtros automáticos e estética algorítmica, o retrô ganha força como contraponto.


Filme, granulação, imperfeição e memória se tornam códigos culturais desejáveis. Não pela técnica, mas pela sensação que evocam.


A loja pop-up em Hong Kong explora exatamente isso. Cada elemento do espaço foi pensado como cenário. Não para produzir fotografias melhores, mas para produzir experiências visualmente reconhecíveis e emocionalmente familiares.


Nesse sentido, a Kodak não compete com inteligência artificial, smartphones ou novas câmeras. Ela contorna o problema, reposicionando-se como símbolo de uma era em que fotografar parecia mais raro, mais físico e mais significativo.



O que esse movimento revela sobre a fotografia hoje

O sucesso da Kodak fora do território técnico levanta uma questão incômoda para o mercado fotográfico: se a marca sobrevive vendendo estética e memória, onde exatamente está o valor da fotografia profissional?


A resposta não está em tecnologia, equipamentos ou velocidade. Está em significado, contexto e intenção. Elementos que não escalam facilmente, mas que continuam sendo percebidos como valiosos quando bem construídos.


A Kodak deixou de vender fotografia. Mas nunca deixou de vender imagem.

Esse deslocamento ajuda a explicar por que tantas discussões atuais sobre fotografia, IA e mercado não se resolvem no campo técnico. Elas são, antes de tudo, disputas simbólicas.


Essas transformações fazem parte do pano de fundo do encontro presencial Fotografia Humana em Tempos de IA, que acontece no dia 25 de fevereiro, reunindo fotógrafos para uma conversa direta sobre imagem, posicionamento e decisões práticas em um mercado cada vez mais automatizado.


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