O criador do ChatGPT disse que imagens geradas por IA valem "efetivamente zero". Ele tem razão e está errado ao mesmo tempo.
- há 1 dia
- 5 min de leitura
Atualizado: há 7 horas
A provocação de Sam Altman acendeu o debate sobre o fim do valor da imagem técnica. Mas o mercado fotográfico brasileiro tem particularidades que a narrativa global ignora. E entendê-las pode ser a diferença entre entrar em pânico e tomar posição.

Há dois dias, foi grande a repercussão com posts sobre falas atribuídas a Sam Altman, CEO da OpenAI:
A IA pode gerar imagens mais belas do que a maioria dos humanos jamais conseguiria. E o valor dessas imagens? "Efetivamente zero."
A provocação viralizou. E merece uma resposta que vá além do reflexo defensivo.
A parte em que Altman tem razão
A lógica econômica é sólida e não adianta ignorá-la. Quando algo se torna abundante, seu preço colapsa. A IA não reduziu o custo da perfeição técnica visual, ela o eliminou. Iluminação perfeita, composição impecável, variações infinitas, entrega imediata. Disponível para qualquer pessoa, a qualquer hora, por quase nada.
O carrossel aponta algo que fotógrafos precisam ouvir sem filtro: o mercado nunca valorizou beleza, detalhe ou maestria técnica como fim em si mesmo. Valorizou o que estava por trás disso. A pessoa. A intenção. O olhar que escolheu enquadrar aquele momento daquela forma porque aquilo importava para alguém.
A IA pode replicar o resultado. Não pode replicar a origem.
A parte em que a narrativa tem pontos cegos, especialmente no Brasil
Aqui começa o contraponto que a discussão global quase sempre ignora.
O primeiro ponto cego é o mercado de baixo custo. Esse segmento não foi destruído pela IA, ele já estava em colapso há anos, pressionado por smartphones, filtros de Instagram e a democratização dos equipamentos. A IA acelerou o que já era inevitável. Fotógrafos que competiam por preço em ensaios genéricos já estavam em terreno instável antes do ChatGPT existir.
O segundo ponto cego é o comportamento do consumidor brasileiro. Diferente de mercados mais transacionais, o consumidor de fotografia no Brasil (especialmente nos segmentos de casamento, newborn, retrato de família e aniversário) compra relação antes de comprar imagem. Ele pesquisa o fotógrafo como pessoa, lê depoimentos, segue o perfil por meses antes de contratar. A decisão é emocional e baseada em confiança. Nenhuma IA, por mais sofisticada, substitui o vínculo que se forma entre um fotógrafo e uma noiva durante meses de alinhamento, ou entre um fotógrafo de newborn e uma mãe em um momento de extrema vulnerabilidade.
O terceiro ponto cego é a natureza dos nichos que sustentam o mercado profissional. A maioria dos fotógrafos que vive de fotografia no Brasil atua exatamente nos segmentos onde autoria e presença humana ainda importam de forma decisiva. Casamento, newborn, retrato, eventos corporativos com identidade de marca... todos esses nichos têm em comum o fato de que o produto final não é apenas a imagem. É a experiência de ser fotografado, a memória de um dia, a prova tangível de um momento que não volta.
A IA como aliada, não só como ameaça
Há ainda um quarto ponto que o debate polarizado costuma ignorar: a IA agêntica não precisa ser o personagem que substitui o fotógrafo. Pode ser o que amplifica seu alcance.
Imagine um sistema treinado com sua linguagem, seu estilo de atendimento, sua curadoria estética e seu posicionamento de mercado, operando de forma autônoma em comunicação, resposta a leads e produção de conteúdo enquanto você está numa sessão de 8 horas fotografando um casamento. Essa não é uma ameaça à autoria. É uma extensão dela.
O fotógrafo que entende isso não pergunta "a IA vai me substituir?". Pergunta "como faço para dirigir a IA com a minha intenção?"
O que muda de verdade
Altman está certo em um ponto central: o valor que estava ancorado na técnica foi eliminado. Mas ele descreve o problema sem entregar a saída e a saída não é resistir à mudança. É entender o que nunca dependeu da técnica para ter valor.
Os fotógrafos que vão prosperar não serão os mais tecnicamente habilidosos. Serão os mais claramente humanos: aqueles que sabem o que têm a dizer, para quem dizem, e como posicionam isso num mercado que, sim, está sendo reorganizado pela automação, mas que ainda compra conexão, memória e confiança de formas que nenhum prompt resolve.
A pergunta que fica não é se a imagem técnica perdeu valor. Já perdeu. A pergunta é: o que você construiu além da técnica? E se ainda não construiu, por onde começa?
A pergunta que fica não é se a imagem técnica perdeu valor. Já perdeu. A pergunta é: o que você construiu além da técnica? E se ainda não construiu, por onde começa?
FAQ
A inteligência artificial vai substituir o fotógrafo profissional?
Não integralmente — e especialmente não no mercado brasileiro. A IA substitui com eficiência a fotografia técnica e genérica, segmento que já estava em colapso antes dela. Fotógrafos que atuam em nichos de alta carga emocional (casamento, newborn, retrato, eventos) vendem relação, presença e memória, não apenas imagem. Esses elementos não são automatizáveis.
O que Sam Altman disse sobre imagens geradas por IA?
Altman afirmou que a IA é capaz de gerar imagens mais belas do que a maioria dos humanos jamais conseguiria, e que o valor dessas imagens seria "efetivamente zero", não menor, mas zero. A lógica é econômica: quando algo se torna abundante, seu preço colapsa. A provocação é válida para imagens técnicas sem autoria, mas ignora o valor da intenção humana por trás da fotografia.
Como fotógrafos brasileiros podem usar IA de forma estratégica?
Usando a IA como extensão da própria autoria, não como substituto. Isso inclui automação de comunicação e atendimento, produção de conteúdo com a própria voz e estilo, e análise de mercado e comportamento do consumidor. O diferencial não está em usar ou não a ferramenta.... está em quem dirige a ferramenta com intenção clara.
O que é IA agêntica para fotógrafos?
É um sistema treinado com o conhecimento, o estilo e o posicionamento do próprio fotógrafo, capaz de operar de forma autônoma em tarefas como resposta a leads, comunicação com clientes e geração de conteúdo. Em vez de substituir o fotógrafo, age como uma versão digital dele... mantendo sua voz ativa mesmo quando ele está em produção.
O mercado de fotografia profissional tem futuro no Brasil?
Sim, mas com um perfil diferente do atual. O fotógrafo puramente técnico enfrenta pressão crescente. O estrategista visual — aquele que combina autoria, posicionamento e uso inteligente de IA... ocupa um espaço que a automação não consegue preencher. O mercado brasileiro, pela sua cultura relacional e pelos nichos que sustentam a maior parte da renda dos fotógrafos profissionais, ainda oferece terreno sólido para quem se reposiciona com clareza.



Comentários