top of page

Quando a IA vira chefe, o problema não é a tecnologia



Li sobre uma plataforma chamada RentAHuman (alugue um humano) e confesso que minha primeira reação foi de estranhamento. Não pelo aspecto futurista (isso já deixou de impressionar) mas pela naturalidade com que a ideia é apresentada: agentes de IA contratando humanos para tarefas no mundo físico, com instruções diretas, pagamentos automáticos e nenhum espaço para conversa. Inclusive uma das tarefas é fotografar coisas no mundo real.


À primeira vista, parece uma provocação estética. Um experimento performático, quase uma piada distópica bem executada. Mas quanto mais penso, menos consigo tratar isso como curiosidade irrelevante.


O que me chama atenção não é a IA “mandando”. É a facilidade com que aceitamos o papel de infraestrutura humana sob demanda.



Durante anos, usamos softwares para organizar tarefas, otimizar tempo e automatizar processos. Nada de errado aí. O problema começa quando a lógica se inverte e o humano deixa de ser o agente que decide usar a ferramenta, passando a ser o recurso acionado por ela. E a isca é poderosa...ganhar um troco da IA para fazer qualquer coisa.


Projetos como esse não surgem do nada. Eles são filhos diretos da gig economy, da normalização do trabalho fragmentado e da ideia de que tudo pode ser convertido em tarefa, preço e execução imediata. A IA só acelera e dá forma a algo que já vinha sendo ensaiado há muito tempo.



O discurso costuma vir embalado em eficiência: sem papinho, sem drama, sem fricção humana. Mas é justamente aí que o alerta aparece. A fricção não é um erro do sistema. Ela é parte do que nos protege, do que cria limites, negociação e responsabilidade.


Quando um software “contrata” alguém de forma anônima, sem mediação, sem contexto e sem consequência, o risco não é apenas trabalhista. É simbólico. A mensagem implícita é clara: você não é alguém, é uma função temporária. O mais irônico: você meio que vira um robô de carne e osso.


Vejo muita gente tratando isso como o futuro inevitável do trabalho. Eu não compro essa ideia. Vejo mais como um teste de até onde vamos sem questionar, seduzidos por novidade, ironia ou promessa de dinheiro fácil.


Não acho que a IA queira ser nossa chefe. Acho que nós estamos, pouco a pouco, abrindo mão de decidir como queremos trabalhar, criar e nos relacionar com sistemas.


Talvez esse tipo de projeto nunca escale. Talvez vire apenas uma nota de rodapé estranha na história da tecnologia. Mas o desconforto que ele causa é legítimo e necessário.


Porque a pergunta que fica não é sobre robôs...Mas sim como nós lidamos com isso.

Comentários


CONTATO

São Paulo, SP

  • Canal de Notícias no Insta
  • Telegram
  • logo-whatsapp-fundo-transparente-icon
  • Youtube
  • Preto Ícone Instagram
  • Preto Ícone Spotify
  • Preto Ícone Facebook

© 2026 - Leo Saldanha. 

Vamos conversar? Obrigado pelo envio

bottom of page