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O que estou lendo: fotografia, controle da imagem e dignidade

  • há 2 horas
  • 4 min de leitura

De Tuchel a Bielsa, de Ripper a um curso gratuito de fotografia, quatro notícias ajudam a lembrar que a imagem continua sendo um território de disputa, formação e poder.



Nesta edição de O que estou lendo, separei quatro notícias que, à primeira vista, parecem falar de assuntos diferentes. Dois vêm da Copa do Mundo. Um fala de uma exposição sobre João Roberto Ripper. Outro trata de um curso gratuito de fotografia no Brasil.


Mas, olhando com mais calma, todos passam pelo mesmo ponto: a fotografia não é apenas registro. Ela organiza presença, define posição, constrói memória, cria conflito, educa o olhar e também revela quem tem ou não tem poder sobre a própria imagem.


1. Quando o fotógrafo entra no campo de visão do técnico

No Metrópoles, uma notícia curiosa mostra Thomas Tuchel, técnico da Inglaterra, irritado com a posição dos fotógrafos durante o hino nacional. Segundo a reportagem, ele reclamou que não conseguia ver os jogadores perfilados porque havia muitos fotógrafos à sua frente. A Fifa acabou mudando o protocolo.



O caso é pequeno, mas simbólico. Fotógrafos não são neutros no espaço. Eles ocupam lugar, interferem na cena, ajudam a transformar um ritual esportivo em imagem pública. Em grandes eventos, a fotografia não acompanha o espetáculo de fora. Ela faz parte da engrenagem do espetáculo.


Tuchel queria viver o hino como treinador. A transmissão, os fotógrafos e a Fifa precisavam transformar aquele momento em imagem. O conflito nasce aí: entre experiência e representação.



2. Bielsa e a recusa em posar

A segunda notícia vai na mesma direção, mas por outro caminho. Marcelo Bielsa, técnico do Uruguai, apareceu nas fotos oficiais da Copa olhando para baixo. Questionado, respondeu que não era modelo.



Bielsa sempre foi um personagem pouco domesticável pela lógica da performance. Nesse caso, a fotografia oficial queria enquadrá-lo dentro de um padrão: olhar para a câmera, fazendo pose, cumprir o protocolo visual. Ele recusou.


É interessante porque a frase “não sou modelo” não é apenas uma resposta atravessada. É quase uma declaração sobre imagem pública. Nem todo mundo quer performar para a câmera. Nem todo retratado aceita virar produto visual do jeito esperado. Resultado: virou meme e notícia. Mas confesso que entendo o lado dele: tem gente que odeia posar...o desafio é quando seu trabalho pede minimamente que você se apresente e seja profissional. Ou seja, entendendo que seu trabalho não deveria impedir o trabalho dos outros.


De qualquer forma, para fotógrafos, existe uma lição aí. Retratar alguém não é só conseguir que a pessoa olhe para a lente. Às vezes, a imagem mais verdadeira está justamente na resistência.



3. João Roberto Ripper e a fotografia como dignidade

Outras Palavras publicou sobre a exposição que celebra os 50 anos de carreira de João Roberto Ripper, inaugurada na Fiocruz. A mostra aborda populações tradicionais do Brasil e reforça a relação entre fotografia, saúde e direitos humanos.



Ripper é um nome importante porque sua fotografia não trata pessoas como personagens exóticos ou vítimas genéricas. Existe ali uma ética do olhar. O fotógrafo não aparece como alguém que apenas captura a dor, mas como alguém que tenta construir dignidade visual.

Esse ponto é cada vez mais necessário. Em tempos de excesso de imagens, IA generativa e conteúdo produzido em escala, a pergunta ética volta com força: o que uma fotografia faz com quem aparece nela?


A fotografia pode reduzir uma pessoa a símbolo. Pode transformar sofrimento em estética. Pode apagar contexto. Mas também pode devolver presença, história e complexidade. Ripper pertence a essa tradição em que a imagem não é só forma. É compromisso.



4. Um curso gratuito para formar o olhar

O Só Notícia Boa destacou a abertura de inscrições para um curso gratuito, online e com certificado na área de fotografia. A iniciativa é da Escola Solano Trindade de Cultura e Economia Criativa, vinculada ao Ministério da Cultura em parceria com o Instituto Federal de Goiás.


Esse tipo de notícia costuma parecer simples, mas é importante. Formação em fotografia não é apenas aprender técnica. É aprender a ler imagens, construir linguagem, entender luz, composição, memória, narrativa e comunicação.


Em um país onde tanta gente fotografa antes mesmo de entender o que está fazendo com a imagem, ampliar o acesso à educação visual é relevante.


O fio que une tudo

Essas quatro notícias mostram a fotografia em lugares bem diferentes: no protocolo da Copa, na recusa de um técnico, na obra de um fotógrafo humanista e em uma formação gratuita.


Mas todas apontam para a mesma coisa: imagem é poder e expressão.


Por isso, continuo achando que a fotografia precisa ser discutida para além da câmera, da lente e da edição. A técnica importa, claro. Mas a disputa maior está em outro lugar: quem controla a imagem, quem aparece, quem interpreta, quem lucra, quem aprende e quem é reduzido a uma superfície visual.


No fundo, essas leituras lembram que fotografar nunca foi só produzir imagem. Fotografar é participar de uma disputa sobre como o mundo será visto.


Para fotógrafos profissionais, nenhuma decisão importante deveria vir separada da estratégia. Isso vale para equipamento, IA, posicionamento, oferta, comunicação e para a forma como cada cliente percebe valor na fotografia.


Na Fotograf.IA Essencial, eu analiso mudanças de mercado, tecnologia, inteligência artificial, comportamento do consumidor e decisões práticas para quem vive da imagem. A proposta é acompanhar esses movimentos com mais contexto, menos hype e mais aplicação no negócio real do fotógrafo.


Na próxima quarta-feira, 24 de junho, às 20h30, vou fazer o Momento R.U.M.O. Especial: quando o mercado muda, a oferta também precisa mudar. O encontro será focado em negócios, reposicionamento, percepção de valor, novas entregas e formas de vender melhor a fotografia em um cenário atravessado por IA, excesso de imagens e mudanças no comportamento do cliente.


A participação está incluída para membros da Fotograf.IA Essencial, e haverá vagas avulsas por R$247 para quem quiser participar do encontro.

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