O que estou lendo: Kodak melhora, Nikon enfrenta atrasos e fotógrafos criam espaços sem IA
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Sete movimentos recentes mostram uma fotografia atravessada ao mesmo tempo por indústria, inteligência artificial, especialização, cultura e uma curiosa valorização do que é físico.

A fotografia de 2026 continua produzindo sinais que parecem apontar para direções opostas.
A Kodak melhora seus resultados. A Nikon enfrenta relatos de atrasos em seu planejamento. Uma plataforma criada para artistas contrários ao uso indiscriminado de suas obras por sistemas de IA é raspada em grande escala. Um festival em Nova York decide não aceitar trabalhos gerados por inteligência artificial. O filme continua encontrando público. Um fotógrafo de gatos constrói uma audiência de milhões. E, em Campinas, uma palestra volta a colocar em discussão os caminhos da fotografia contemporânea brasileira.
Kodak melhora, enquanto a indústria continua pressionada
No segundo trimestre de 2026, a empresa registrou receita de US$ 311 milhões, avanço de US$ 48 milhões em relação ao mesmo período do ano anterior. O lucro bruto também cresceu, e a companhia saiu de prejuízo líquido de US$ 26 milhões para lucro de US$ 17 milhões.
É tentador interpretar isso apenas como mais um sinal da retomada do filme fotográfico.
Mas a Kodak de hoje é bem diferente daquela companhia associada quase exclusivamente à fotografia de consumo.
A empresa atua em impressão, materiais avançados, químicos, filmes cinematográficos e outras áreas. O negócio de filme continua relevante, inclusive com a retomada da distribuição direta de produtos fotográficos, mas faz parte de uma estrutura mais ampla.
Ao mesmo tempo, a indústria de câmeras continua lidando com pressões menos visíveis para o consumidor.
Relatos recentes indicam que parte dos planos da Nikon para 2026 pode estar sofrendo atrasos. Algumas dessas informações ainda dependem de fontes não oficiais, especialmente em relação a produtos futuros, por isso vale tratar o possível cronograma com cautela.
Mais interessante do que especular sobre um modelo específico é observar o contexto industrial. Custos de memória, disponibilidade de componentes, cadeia de produção e comportamento da demanda estão interferindo cada vez mais nos planos das fabricantes.
É um lembrete de que a evolução das câmeras não depende apenas de sensores, lentes ou inovação. Existe uma indústria inteira por trás delas.
Espaços sem IA começam a aparecer como proposta de valor
Outra movimentação chama atenção por um motivo completamente diferente.
Segundo sua fundadora, um usuário teria conseguido extrair mais de 12 milhões de trabalhos da plataforma, totalizando cerca de 12 terabytes de dados, apesar das medidas de proteção existentes.
O caso mostra uma fragilidade importante da discussão sobre consentimento.
Uma política pode dizer que determinada obra não deve ser coletada. Isso não significa necessariamente que a infraestrutura consiga impedir tecnicamente essa coleta.
Quase ao mesmo tempo, surge outro movimento.
A proposta é reunir fotógrafos vendendo impressões, livros, zines e outros trabalhos físicos diretamente ao público.
Os dois casos são diferentes, mas se encontram em um ponto interessante.
Começam a surgir espaços nos quais a ausência de geração sintética passa a fazer parte da proposta de valor.
Ainda é cedo para chamar isso de uma tendência ampla ou de uma reação organizada da fotografia contra a IA. Mas é um movimento que merece observação.
Autoria, procedência, trabalho físico, impressão e presença humana começam a aparecer não apenas como valores culturais, mas também como atributos capazes de diferenciar uma experiência, um evento ou uma comunidade.
O filme continua encontrando espaço
Também segue aparecendo outro movimento que poderia parecer contraditório em plena aceleração da inteligência artificial.
É fácil explicar todo interesse pelo analógico como nostalgia, mas essa leitura parece incompleta.
Para parte dos fotógrafos, o interesse está no próprio processo: limitação de exposições, ritmo mais lento, materialidade, imprevisibilidade e envolvimento maior com cada decisão antes do clique.
Isso não significa uma substituição do digital nem uma grande volta ao passado.
Mostra apenas que, quanto mais automatizada e abundante se torna a produção de imagens, experiências baseadas em limitação e materialidade podem ganhar outro tipo de valor.
O resultado da Kodak ajuda a tornar essa observação ainda mais interessante. O filme está longe de explicar sozinho a recuperação da companhia, mas continua existindo como mercado dentro de uma empresa que precisou se transformar muito além dele.
Um fotógrafo de gatos e o valor de ser extremamente específico
Enquanto parte do setor discute inteligência artificial, indústria e filme, um fotógrafo alemão construiu uma audiência gigantesca fotografando praticamente uma única coisa: gatos.
Nils Jacobi, conhecido como Catographer, ultrapassou 1 milhão de seguidores no Instagram e acumulou milhões de seguidores considerando também outras plataformas.
Mas o número, isoladamente, é a parte menos interessante.
Jacobi desenvolveu uma linguagem facilmente identificável dentro de um território extremamente específico. Fisheye, ângulos baixos, aproximações extremas, saltos e situações pouco convencionais aparecem repetidamente em seu trabalho.
Em um mercado no qual muitos profissionais tentam ampliar continuamente a quantidade de serviços oferecidos, ele fez praticamente o movimento contrário.
Escolheu um território estreito e aprofundou sua linguagem dentro dele.
Isso não significa que todo fotógrafo precise escolher um nicho tão específico quanto gatos.
Mas é um caso concreto de como especialização, repetição e linguagem própria também podem construir diferenciação.
E a fotografia contemporânea continua sendo discutida presencialmente
No Brasil, outro sinal vem de uma escala bem diferente.
Campinas recebe uma palestra dedicada às tendências da fotografia contemporânea brasileira, colocando em pauta produção, linguagem e caminhos atuais do setor.
É um movimento menos espetacular do que um novo lançamento de câmera ou uma ferramenta de IA.
Mas talvez seja justamente por isso que mereça atenção. Nem toda transformação relevante da fotografia está acontecendo dentro de uma plataforma, de uma fabricante ou de uma empresa de tecnologia. Parte dela continua acontecendo em encontros, exposições, festivais, conversas e circuitos locais.
A fotografia não está seguindo uma única direção
Quando essas notícias aparecem separadamente, parecem pertencer a assuntos diferentes.
Colocadas lado a lado, mostram algo mais interessante.
Uma parte da fotografia avança com inteligência artificial e automação. Outra cria espaços nos quais a ausência de geração sintética passa a ser um diferencial. O filme continua encontrando público. Grandes fabricantes enfrentam pressões industriais que pouco têm a ver com criatividade. A discussão contemporânea continua acontecendo presencialmente. E um fotógrafo pode construir uma audiência de milhões trabalhando dentro de um nicho extremamente específico.
Para quem vive de fotografia, acompanhar essas mudanças importa menos para tentar adivinhar “o futuro” e mais para perceber onde surgem novas pressões, novos comportamentos e novas oportunidades.
É exatamente essa discussão que estará no Mapa R.U.M.O. Presencial, no dia 1º de setembro, em São Paulo. → Mapa R.U.M.O. Presencial | 1º de setembro | Avenida Paulista, São Paulo | grupo pequeno
Um dia de trabalho em grupo pequeno sobre marketing e branding para a nova fase da fotografia, passando por posicionamento, oferta, preço, percepção de valor e direção para os próximos meses.
Porque, quando o mercado começa a se mover em várias direções ao mesmo tempo, a pergunta mais importante deixa de ser “qual tendência eu devo seguir?” e passa a ser:
qual caminho faz sentido para o meu negócio agora?



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