Evoto e o limite entre automação e substituição na fotografia profissional
- Leo Saldanha

- há 6 horas
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Lançamento de um gerador automático de retratos reacende o debate sobre confiança, automação e o futuro do trabalho fotográfico em 2026

Durante a edição deste ano da Imaging USA, realizada em Nashville, um lançamento da Evoto AI provocou uma reação imediata e pouco comum no mercado de softwares para fotografia. A empresa apresentou, ainda que descrito posteriormente como “experimental”, um AI Headshot Generator capaz de gerar retratos corporativos a partir de uma selfie enviada pelo usuário, em um teste que rapidamente ganhou visibilidade durante o evento.
O problema não esteve apenas na tecnologia em si, mas na forma como o produto foi comunicado. Em materiais divulgados durante o evento e em páginas de apoio, a ferramenta foi apresentada como uma alternativa mais rápida e barata a processos tradicionalmente associados a estúdios fotográficos profissionais, o que gerou desconforto entre fotógrafos que, até então, viam a Evoto como uma plataforma voltada à automação de edição e ao ganho de produtividade.
A reação veio de dentro da própria base
A resposta negativa não partiu de concorrentes ou de observadores externos, mas de fotógrafos usuários da própria plataforma, incluindo embaixadores da marca. O episódio ganhou tração após a divulgação de uma página de perguntas frequentes compartilhada pelo fotógrafo e criador de conteúdo Sal Cincotta, em que a própria empresa estabelecia comparações diretas entre o gerador de headshots e serviços tradicionalmente oferecidos por estúdios fotográficos, destacando velocidade, custo reduzido e flexibilidade.
A repercussão foi rápida. Em fóruns, grupos fechados e redes sociais, o lançamento passou a ser interpretado não como uma ferramenta de apoio ao fotógrafo, mas como um movimento que deslocava o profissional do centro do processo. Poucos dias depois, a empresa publicou um pedido formal de desculpas em seu grupo oficial, afirmando ter “cruzado uma linha” ao testar um produto que gera imagens do zero.
A Evoto anunciou a remoção do gerador de headshots e reiterou que não utiliza imagens de clientes para treinamento de seus modelos, afirmando trabalhar apenas com bases de dados licenciadas. Ainda assim, a resposta não foi suficiente para conter a desconfiança de parte da comunidade.
O ponto sensível não é a IA, é o posicionamento
Ferramentas de inteligência artificial já fazem parte do fluxo de trabalho de fotógrafos profissionais há anos. Ajustes automáticos, redução de ruído, seleção de imagens e retoque acelerado são hoje práticas comuns. O que diferencia este episódio é o deslocamento do discurso: da assistência ao processo para a substituição explícita do serviço.
Nesse sentido, o caso Evoto funciona menos como exceção e mais como sintoma. A fotografia de retrato corporativo, por sua natureza padronizada e funcional, tornou-se um dos primeiros alvos de sistemas generativos capazes de produzir resultados aceitáveis para o público médio em poucos segundos.

Um mercado em transição acelerada
O avanço recente da IA generativa não se limita a empresas especializadas em fotografia. Infraestruturas desenvolvidas por grandes players como Google e OpenAI passaram a alimentar uma cadeia de produtos que tornam a geração de imagens cada vez mais acessível, barata e rápida.
Isso altera profundamente a lógica de nichos historicamente considerados estáveis, como retratos corporativos e fotografia de produto. Para muitos clientes, a contratação de um fotógrafo ainda ocorre não por preferência estética, mas por desconhecimento de alternativas automatizadas. À medida que essas ferramentas se tornam mais visíveis, a pressão sobre esses mercados tende a aumentar.
A contradição pouco discutida
Há, no entanto, um ponto menos explorado no debate público. Durante anos, fotógrafos adotaram tecnologias de automação para reduzir custos e acelerar entregas, substituindo etapas manuais e, em muitos casos, eliminando a necessidade de retocadores profissionais. A lógica que agora avança sobre o próprio ato fotográfico é a continuidade desse mesmo movimento.
A reação ao caso Evoto expõe essa contradição. A crítica não é infundada, mas revela um mercado que começa a sentir os efeitos de uma automação que deixou de ser periférica e passou a tocar o núcleo da atividade.
O contexto brasileiro amplia a tensão
No Brasil, o debate ganha contornos adicionais. Softwares internacionais representam um custo fixo elevado, impactado pelo câmbio e por reajustes frequentes. Nos últimos anos, tornou-se comum ver fotógrafos manifestando publicamente insatisfação com aumentos de assinatura e mudanças de plano, especialmente em plataformas consolidadas.
Esse ambiente torna qualquer sinal de substituição ainda mais sensível. Não por rejeição à tecnologia, mas pela percepção de perda de controle sobre o próprio modelo de trabalho.
Não é o fim da fotografia, mas o fim de algumas certezas
O episódio envolvendo a Evoto AI não indica o desaparecimento da fotografia profissional. Indica, sim, o esgotamento de alguns modelos baseados exclusivamente em tarefas repetíveis e previsíveis. A diferença entre ferramenta e substituição deixou de ser técnica e passou a ser estratégica.
Premiações, mercado e tecnologia continuam avançando em ritmos distintos. Para o fotógrafo profissional, a questão central já não é se a inteligência artificial será usada, mas em que posição ela será colocada no processo e qual valor humano permanece insubstituível.
Decidir com leitura de cenário, não por reação
Casos como este mostram que a discussão sobre IA na fotografia deixou de ser abstrata. Ela impacta posicionamento, oferta e sustentabilidade do negócio. Esses temas estarão no centro do Mapa R.U.M.O. 2026, encontro online na próxima quarta-feira, dia 21, às 20h, voltado a fotógrafos que precisam organizar decisões para o ano.
Para acompanhar análises contínuas sobre mercado, tecnologia e fotografia profissional, a Comunidade Fotograf.IA + C.E.Foto reúne conteúdos e debates para quem vive da imagem e precisa pensar além da ferramenta da vez.

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