Momento Rumo - O ChatGPT na TV e a ilusão da consultoria grátis
- há 4 dias
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Quando a inteligência artificial vira propaganda de massa, fica mais urgente separar resposta pronta de diagnóstico real.

A Copa do Mundo colocou um novo personagem no intervalo comercial da Globo. A OpenAI, dona do ChatGPT, entrou como cotista do projeto comercial da emissora e passou a dividir espaço com marcas que já fazem parte do repertório publicitário brasileiro. Segundo informações publicadas no mercado, o investimento gira em torno de R$ 60 milhões.
Uma das peças mostra uma dona de pequeno negócio pedindo dicas para aumentar o faturamento. A cena é simples, direta e pensada para parecer familiar. Qualquer fotógrafo que trabalha como pessoa física, sem departamento de marketing, sem agência e sem verba para errar muito, entende o apelo.
O efeito colateral é previsível. Se a ferramenta aparece na TV dando dica de graça para um pequeno negócio, por que alguém pagaria por diagnóstico, consultoria ou qualquer processo que exija reflexão, tempo e dinheiro? A pergunta é legítima. A resposta exige separar duas coisas que a propaganda aproxima de propósito.
O que a ferramenta entrega
O ChatGPT é muito bom em produzir respostas rápidas sobre marketing, vendas, redes sociais e crescimento de negócio. Isso acontece porque esse tipo de conteúdo já existe aos milhões na internet. Está publicado, indexado, repetido, reciclado e empacotado há anos em ebooks gratuitos, checklists de Instagram, aulas abertas e cursos baratos.
“Como aumentar o faturamento do seu negócio” é menos uma pergunta específica e mais um gênero textual. O modelo reconhece o padrão e devolve algo coerente, organizado e útil o suficiente para quem ainda não fez o básico.
Isso não é pouca coisa. Para muitos fotógrafos, pode ser uma primeira camada de organização. O problema começa quando essa primeira camada é confundida com diagnóstico.
Porque uma resposta genérica pode parecer inteligente justamente por não correr o risco de encostar no ponto mais difícil: o caso real.
O que a ferramenta não entrega
Diagnóstico exige olhar um negócio específico. Não o fotógrafo abstrato da internet, mas aquele fotógrafo, com aquele portfólio, aquele preço, aquele histórico de tentativa e erro, aquela comunicação, aquele público, aquela cidade, aquele repertório visual e aquelas contradições que ele mesmo não percebe porque está dentro delas. Esse valor do personalizado com nuance humana é algo muito mais valioso. E específico.
Saramago descreveu isso melhor do que muito manual de marketing: é preciso sair da ilha para ver a ilha. Não nos vemos sem sairmos de nós. IA não sai da ilha, ela só aproveita o contexto enviado para ela. Muitas vezes com viés forte que não ajuda no distanciamento. Isso é coisa para humanos.
O fotógrafo pode fazer boas perguntas ao ChatGPT. Pode pedir análise, ideias, caminhos, comparações e sugestões. Mas continua havendo um limite difícil de contornar: ninguém enxerga a própria ilha completamente de dentro dela.
A segunda ausência é a decisão sob ambiguidade.
Quando o fotógrafo pergunta “o que eu faço?”, o ChatGPT tende a devolver possibilidades. Ele pode listar caminhos, organizar cenários, sugerir testes e apontar riscos.
Mas ele não segura o cliente quando o cliente quer fazer a coisa errada rápido. Não percebe sempre quando a pergunta já nasce de um diagnóstico equivocado. Não assume responsabilidade quando a decisão dá errado. Não enfrenta a fricção humana de dizer: o problema não está onde você acha que está.
Consultoria de posicionamento existe justamente nesse ponto. Não para entregar frases bonitas. Nem para repetir o que a internet já disse. Mas para sustentar uma leitura, fazer cortes, recusar atalhos e ajudar o fotógrafo a enxergar o que ele sozinho tende a justificar.

O que muda de fato
O risco real da campanha não é a substituição imediata da consultoria. Mas sim a elevação do piso de expectativa.
Mais gente vai chegar achando que já sabe o básico. Com isso fotógrafos vão ter menos paciência para pagar por algo que, na superfície, parece disponível de graça na tela do celular. Logo, os consultores vão precisar explicar melhor a diferença entre uma resposta pronta e um processo de leitura.
O efeito da ilusão já ocorre e vemos isso na prática em posts genéricos nas redes sociais e estratégias frágeis. Falta a visão humana, mais complexa e rica.
De qualquer forma, isso não elimina o diagnóstico. Mas muda o argumento de venda de quem trabalha com estratégia. Como sempre digo: melhor usar o ChatGPT do que nada...mas só ele ainda não é o bastante.
A partir de agora, vender consultoria como “vou te dar ideias” ficou ainda mais frágil. Ideia a ferramenta entrega. Lista a ferramenta entrega. Calendário de post a ferramenta entrega. Frase de bio a ferramenta entrega. A visão mais profunda e humana, essa tem valor.
O que a IA não entrega com a mesma força é leitura situada, confronto honesto, responsabilidade e decisão. E sobretudo, experiência e visão de mercado reais.
Quem vende diagnóstico e posicionamento estratégico para fotógrafos vai precisar deixar mais explícito o que separa uma resposta genérica de um processo que atravessa a ilha de dentro para fora. Isso vale para mim e para os colegas que vendem educação. Acredito que afeta já workshops, cursos, palestras e afins.
Informação útil mas simples já temos de forma genérica desde os tempos do Google. Antes a afirmação era: está tudo de graça na internet. Agora mais pró-ativa com a IA. Essa distinção sempre existiu. A propaganda do ChatGPT para a Copa só tornou tudo mais visível.
O ChatGPT pode ajudar com ideias. Mas diagnóstico começa quando alguém olha para o seu caso, com contexto, contradições e escolhas reais.
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