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POV | Ponto de Vista: Quando o Brasil vence e a IA perde

  • 28 de mar.
  • 4 min de leitura

Atualizado: 29 de mar.

Leitura estratégica dos movimentos que estão reposicionando a fotografia entre a cultura, o mercado e a tecnologia.



por Leo Saldanha


Duas narrativas dominaram a semana de forma simultânea e quase irônica: o Brasil acumulou reconhecimentos internacionais em fotografia em velocidade incomum, enquanto a IA deu seus primeiros recuos visíveis no audiovisual. O mercado de câmeras, por sua vez, foi aos extremos... um sensor de US$ 10 mil com 105 megapixels de um lado, a paralisia das linhas de cartão de memória da Sony do outro. E uma mudança técnica de 22 anos de história finalmente virou padrão oficial.

Aqui está minha leitura.


1. O Brasil que o mundo está contratando

André Tezza, fotógrafo curitibano, conquistou o terceiro lugar no Latin America Professional Award 2026, uma das categorias do Sony World Photography Awards. A série vencedora, chamada Mercadinhos, documenta pequenos mercados de bairro nos arredores de Curitiba, o tipo de espaço que o circuito da moda ignora e que o olhar autoral transforma em argumento estético. É a segunda vez consecutiva que Tezza chega à final da premiação, e a cerimônia de entrega acontece em abril, em Londres.


O destaque brasileiro no Sony WPA não é isolado. O Porto recebeu a exposição World Press Photo 2026 e a seleção reuniu trabalhos de fotógrafos brasileiros entre os reconhecidos pela premiação.


O programa Through Southern Lenses, que acaba de anunciar o vencedor da sua edição inaugural, reforça que há um ecossistema de fomento à fotografia documental do hemisfério sul ganhando consistência. E a série de Harry Potter, produção da HBO que começa a revelar suas equipes técnicas, tem um diretor de fotografia brasileiro à frente.


Lido em conjunto, esse conjunto de sinais diz algo preciso: o olhar fotográfico brasileiro tem trânsito global. A questão que sobra para o profissional que trabalha no mercado interno é o que ele está fazendo com isso.


2. A IA se reorganizando — e o que isso realmente significa

A OpenAI encerrou o Sora. A notícia circulou com tom de celebração em alguns cantos do mercado criativo, e de fato o Sora havia sido classificado pela agência de talentos CAA como um risco significativo para criadores. O encerramento foi justificado por pressão financeira: manter um gerador de vídeo gratuito consome infraestrutura cara, e a OpenAI está gastando dezenas de bilhões para escalar. O negócio não fechava.


Mas a cautela é necessária antes de qualquer interpretação vitoriosa. Na mesma semana, o ByteDance lançou globalmente o Seedance 2.0, seu gerador de vídeo por IA. Ou seja: o campo não está recuando. Está sendo ocupado por outros players, com outra arquitetura de monetização. O Sora morreu; a disputa pelo território continua.


O que a queda do Sora confirma, mais do que qualquer outra coisa, é que geração de vídeo sintético em escala é um problema de custo de infraestrutura antes de ser um problema criativo. E esse custo está consumindo componentes de memória que fotógrafos também precisam.


3. O hardware nos extremos e a cadeia de suprimentos revelada

A Sony demostrou o sensor IMX927: 105 megapixels, 10K de resolução, 100 quadros por segundo, obturador global. É um sensor industrial desenvolvido para automação de fábrica e inspeção de qualidade, mas os rumores de que a Sony prepara câmeras mirrorless com tecnologia equivalente são consistentes. Se acontecer, o médio formato como conhecemos hoje muda completamente de posição competitiva.


No mesmo dia, a Sony suspendeu os pedidos de praticamente toda a sua linha de cartões de memória SD e CFexpress , CFexpress Type A, Type B e a linha completa de SD, incluindo os modelos TOUGH. O motivo: escassez global de semicondutores, causada pela demanda de data centers de IA por componentes de memória. A IA está consumindo a matéria-prima que grava as suas imagens.


É o mesmo movimento visto da base e do topo da indústria ao mesmo tempo. No topo, a Sony empurra a tecnologia de sensor além do que qualquer câmera de consumo comporta hoje. Na base, a cadeia de suprimentos da memória fotográfica quebra porque os data centers de IA estão absorvendo tudo. O fotógrafo existe nesse intervalo.


4. O DNG virou padrão internacional, 22 anos depois

Em 2004, um fotógrafo australiano chamado Robert Edwards fez uma pergunta num fórum: a Adobe conseguiria criar um formato RAW aberto? Thomas Knoll, o engenheiro que inventou o Photoshop, respondeu que sim. O DNG nasceu meses depois. Agora, em 2026, o DNG é oficialmente o padrão ISO 12234-4 para arquivos RAW digitais , o mesmo status de formatos como TIFF e PDF.


O que muda na prática? Tecnicamente, pouco no curto prazo. Quem já usa DNG continuará usando; quem prefere os formatos proprietários de cada fabricante pode continuar sem impacto imediato. Mas o argumento que fabricantes como Nikon, Canon e Sony usavam para não adotar o DNG, de que era um formato da Adobe, não aberto de verdade... deixou de existir. Agora é um padrão da ISO, documentado e implementável por qualquer empresa sem custo de licença.


O longo prazo é onde a mudança importa: arquivos RAW em DNG têm interoperabilidade e longevidade que formatos proprietários nunca terão. Para fotógrafos que pensam em preservação do arquivo (e todo fotógrafo com acervo deveria pensar) essa é uma âncora de segurança que finalmente tem reconhecimento institucional.


Perceber esse movimento é só o começo.

O mais difícil é organizar decisões a partir dele, sem cair em reação ou improviso.

O Mapa R.U.M.O. nasce exatamente desse ponto. Ajudar fotógrafos a entender onde estão, o que está mudando no mercado e quais decisões fazem sentido a partir disso.


Para quem decide ir além da leitura pontual, a comunidade Fotograf.IA + C.E.Foto acompanha esse processo ao longo do tempo, com análise contínua, encontros e troca real entre profissionais.



Para resumir:


A fotografia brasileira está em alta internacional?

Sim. Premiações recentes e presença em produções globais indicam maior reconhecimento e circulação internacional.


A IA está perdendo força na criação de vídeo?

Não. O encerramento de uma ferramenta indica ajuste econômico, não queda do setor.


O que muda com o DNG virar padrão ISO?

Garante maior longevidade e interoperabilidade dos arquivos RAW no longo prazo.


A IA impacta diretamente fotógrafos hoje?

Sim. Principalmente via cadeia de suprimentos, custos e mudança na demanda por imagem.

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