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O que estou lendo: Bob Wolfenson fora do estúdio

  • 7 de mai.
  • 3 min de leitura

Em Exteriores, o fotógrafo conhecido por retratos, moda e publicidade desloca o olhar para ruas, acaso, memória urbana e cenas encontradas ao longo de cinco décadas.


Bob Wolfenson lança nesta quinta-feira, 7 de maio de 2026, em Campinas, o livro Exteriores, com bate-papo e sessão de autógrafos na Livraria Candeeiro, no Cambuí. A notícia, à primeira vista, parece apenas uma agenda cultural. Mas ela carrega uma leitura mais interessante para quem vive da imagem. O livro reúne 75 fotografias feitas ao longo de cinco décadas e apresenta um lado menos óbvio de um dos nomes mais reconhecidos da fotografia brasileira.


Bob Wolfenson ficou conhecido por transitar com força entre moda, retrato, nus, publicidade e projetos autorais. Sua fotografia muitas vezes esteve associada ao domínio da cena, da luz, do corpo, da presença e da construção de imagem. Exteriores aponta para outra direção. O livro desloca o olhar para ruas, interiores, expressões passageiras e cenas encontradas em diferentes lugares do mundo. Segundo a própria apresentação da Cosac, a obra propõe uma reflexão sobre tempo, memória e solidão urbana.



É isso que torna o livro especialmente interessante. Não se trata apenas de um fotógrafo consagrado publicando uma nova seleção de imagens. Trata-se de um fotógrafo acostumado à caixa preta do estúdio olhando para o lado de fora, onde a fotografia depende menos do controle total e mais da atenção ao que aparece. A Revista Cult leu esse movimento como uma oposição direta ao interior, lugar tradicional de parte importante da obra de Wolfenson, e destacou o exterior como espaço de encontro com o acaso, com a alteridade e com a tradição da fotografia de rua.


Esse deslocamento importa para o fotógrafo profissional de hoje. Em um tempo em que boa parte da conversa sobre imagem gira em torno de ferramenta, câmera, sensor, IA, edição e fluxo de trabalho, Exteriores recoloca uma questão anterior: o que sustenta uma fotografia quando o equipamento deixa de ser o centro da conversa?


A resposta parece estar no olhar. Não no olhar como palavra bonita, usada de forma genérica, mas como prática. A capacidade de reconhecer uma cena, escolher um instante, construir uma sequência de imagens ao longo de décadas e transformar encontros dispersos em obra. O próprio livro inclui imagens feitas também com celular, o que reforça essa leitura: a tecnologia muda, mas a autoria continua dependendo de repertório, presença, intenção e seleção.



Antes de chegar ao público em forma de livro em Campinas, Exteriores já havia ganhado corpo expositivo. A mostra passou pela Unibes Cultural, em São Paulo, entre agosto e dezembro de 2025, com 53 fotografias selecionadas por Bob Wolfenson e Ana Tonezzer. Em 2026, o projeto aparece também na programação do Foto em Pauta, em Tiradentes, no Instituto Rouanet. O livro, portanto, não funciona apenas como publicação de carreira, mas como desdobramento de uma pesquisa visual que vem sendo organizada, exibida e relida em diferentes contextos.



Para a série O que estou lendo, talvez o gancho não seja apenas “Bob Wolfenson lança livro”. O gancho mais forte é outro: quando um fotógrafo consagrado muda o eixo do próprio olhar, ele nos lembra que carreira também é movimento. Mesmo depois de décadas de reconhecimento, ainda é possível abrir outra frente, revisar o próprio arquivo, reler a própria trajetória e mostrar um lado menos esperado do trabalho.


E esse talvez seja o ponto mais útil para fotógrafos profissionais. Nem toda renovação vem de uma ferramenta nova. Às vezes, ela vem de voltar ao arquivo, sair do ambiente previsível, caminhar sem pauta rígida, observar o que se repete no próprio olhar e transformar aquilo em linguagem.


Este texto faz parte da série O que estou lendo. Para acompanhar outras leituras sobre fotografia, imagem, mercado e inteligência artificial, assine a Spotlink Newsletter.

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