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O que estou lendo: autoria, memória, poder e resistência na fotografia

23 de jul.
5 min de leitura

Fotografia entre tribunais, repressão política, arquivos brasileiros, criação coletiva e reação à inteligência artificial.



Uma fotógrafa perde uma ação contra uma imagem recriada por inteligência artificial. Outra recebe uma sentença de 74 chibatadas por registrar uma apresentação musical no Irã. No Brasil, dois arquivos ajudam a preservar histórias que poderiam desaparecer.

As leituras de hoje mostram a fotografia circulando por tribunais, regimes políticos, exposições, festivais e arquivos pessoais. Também trazem uma pergunta recorrente em 2026: o que permanece próprio da fotografia quando imagens podem ser transformadas, reproduzidas e geradas com tanta facilidade?


Uma fotografia pode ser recriada por IA sem violar os direitos do fotógrafo?

Uma fotógrafa especializada em retratos subaquáticos de cães perdeu, na Alemanha, uma ação contra uma antiga parceira comercial que usou uma de suas fotos para gerar uma versão em estilo de história em quadrinhos.

A Justiça entendeu que a nova imagem havia alterado elementos protegidos da fotografia original, como enquadramento, perspectiva, iluminação, profundidade de campo e aparência visual. O cachorro mergulhando em direção a um brinquedo foi tratado apenas como o motivo da cena, que não seria protegido isoladamente.

A decisão chama atenção porque estabelece uma separação delicada entre o que foi fotografado e as escolhas criativas empregadas pelo fotógrafo. Também mostra como os tribunais começam a avaliar imagens geradas por IA com base em conceitos anteriores à própria tecnologia.


A fotografia que custou 74 chibatadas

A fotógrafa iraniana Tahmineh Monzavi foi condenada após registrar uma apresentação da cantora Parastoo Ahmadi sem o hijab obrigatório. Segundo a reportagem, a sentença inclui 74 chibatadas, restrições para deixar o país e impedimento temporário de exercer atividades artísticas.

A fotografia mostra Ahmadi durante a apresentação. Fora do contexto iraniano, poderia parecer apenas o registro de um espetáculo. Dentro dele, tornou-se documento de uma infração aos códigos impostos às mulheres e parte de um conflito maior envolvendo arte, religião, Estado e liberdade de expressão.

É também um lembrete de que o risco de produzir uma imagem muda radicalmente conforme o lugar, o assunto e quem aparece diante da câmera.


O fotógrafo que perde a memória enquanto suas imagens preservam a história

O documentário Higa Ke — Olho por Olho acompanha Roberto Higa, veterano fotojornalista de Mato Grosso do Sul, enquanto ele revisita sua trajetória diante do avanço do Alzheimer.

Durante mais de quatro décadas, Higa registrou a formação do estado, a transformação de Campo Grande, manifestações culturais, personagens populares e cenas cotidianas de uma região ainda pouco representada no audiovisual brasileiro.

O filme foi produzido ao longo de mais de dez anos. A história cria um contraste forte: enquanto a memória pessoal do fotógrafo começa a desaparecer, suas imagens permanecem como testemunho da memória coletiva.


As imagens quase desconhecidas da construção de Brasília

Uma exposição no Distrito Federal apresenta fotografias inéditas de Geraldo Vieira, que documentou a construção e os primeiros anos de Brasília.

O acervo reúne centenas de negativos em preto e branco e mostra canteiros de obras, trabalhadores, cerimônias e personagens ligados à criação da capital. Além do valor histórico, há uma boa história sobre improvisação técnica: para fotografar Juscelino Kubitschek acima da multidão, Vieira chegou a colocar sua Rolleiflex na ponta de um cabo de vassoura.

O conjunto amplia a memória visual de Brasília para além das imagens já consagradas de sua arquitetura monumental. Mostra também o trabalho dos fotógrafos que acompanharam a cidade enquanto ela ainda estava sendo construída.


Um festival de fotografia humana em resposta à IA

O 5 Boro Foto Fest será realizado em Nova York com uma posição explícita: valorizar trabalhos produzidos por fotógrafos e deixar de fora imagens geradas por inteligência artificial.

A proposta inclui venda de impressões, fotolivros, zines e trabalhos em mídia mista. O evento procura criar uma circulação física para a fotografia, distante da disputa por alcance nas plataformas e da crescente quantidade de conteúdo sintético.

A reação frontal à IA pode parecer defensiva, mas existe uma ideia de mercado interessante por trás dela. O festival transforma procedência humana, encontro presencial e objeto físico em parte da proposta de valor.


Fotografias provocadoras construídas em colaboração

Uma retrospectiva de Bob Carlos Clarke, marcada para setembro em Londres, pretende rever uma parte de sua obra frequentemente reduzida à provocação, ao erotismo e ao choque.

A exposição destaca o trabalho de preparação por trás das imagens: escolha das modelos, construção das personagens, iluminação, direção, figurino e relações criativas mantidas por anos. Segundo os organizadores, suas fotografias mais confrontadoras não surgiam de situações espontâneas, mas de processos cuidadosamente planejados.

A pauta interessa porque desloca a discussão do impacto da imagem final para as relações que permitiram produzi-la. Também ajuda a pensar autoria como algo construído entre fotógrafo, pessoa fotografada e equipe.


Uma premiação que nasceu do encontro com Albert Einstein

A fotógrafa Marilyn Stafford começou sua trajetória depois de receber uma câmera emprestada para registrar Albert Einstein. Seu nome hoje identifica um prêmio voltado a mulheres que desenvolvem projetos documentais ligados a questões sociais, culturais e ambientais.

Na edição que celebra os dez anos da iniciativa, fotógrafas premiadas e profissionais experientes discutem acesso ao mercado, proximidade com os personagens, publicação de fotolivros e os desafios enfrentados por mulheres no fotojornalismo contemporâneo.

A história de Stafford também mostra como uma oportunidade aparentemente isolada pode produzir uma trajetória inteira quando encontra curiosidade, presença e continuidade.


O World Press Photo chega a São Paulo

A exposição World Press Photo 2026 está em cartaz na Caixa Cultural São Paulo com 42 projetos premiados no concurso internacional de fotojornalismo.

As imagens atravessam conflitos, migrações, mudanças climáticas, relações familiares e acontecimentos políticos. O conjunto também oferece uma oportunidade para observar como o fotojornalismo contemporâneo está se afastando da ideia de uma única imagem definitiva e incorporando projetos mais longos, arquivos, sequências e formas documentais híbridas.

Em um momento de desconfiança crescente em relação às imagens, visitar uma exposição como essa também significa pensar em contexto, procedência, edição e responsabilidade editorial.


Uma leitura que atravessa todas essas histórias

As pautas de hoje parecem distantes entre si, mas compartilham um ponto importante. O valor de uma fotografia raramente está apenas no assunto que aparece dentro do quadro.

Ele também está nas decisões do fotógrafo, na relação com quem foi fotografado, no risco assumido, no contexto de circulação, na preservação do arquivo e na forma como aquela imagem será interpretada depois.

Isso vale para a fotografia documental, artística e jornalística. Também vale para quem vive de atender clientes.

Quando o mercado não percebe as escolhas e o contexto que sustentam um trabalho, acaba comparando apenas aparência, quantidade e preço.


Nova janela do Mapa R.U.M.O. até 26 de julho

O Mapa R.U.M.O. é uma leitura estratégica individual para fotógrafos e profissionais da imagem que precisam rever posicionamento, oferta, preço, comunicação e percepção de valor.

A nova janela fica aberta até 26 de julho. O trabalho inclui análise individual, encontro online e relatório personalizado com os principais pontos de atenção e os próximos movimentos possíveis para o negócio.

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