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Tem alguém aí?

  • 3 de mar.
  • 5 min de leitura

 O que Lanthimos, Iñárritu, Kubrick, um livro analógico e um filme de IA dizem juntos sobre autoria e valor



Yorgos Lanthimos, diretor de Pobres Criaturas e O Lagosta, anunciou que vai parar de fazer filmes por um tempo para se dedicar à fotografia analógica. "Tirar fotos se tornou uma coisa importante na minha vida além do cinema", ele disse ao New York Times. "É muito mais livre. Sinto que há menos regras atadas à narrativa convencional." Quando estava rodando Pobres Criaturas em Budapeste, Lanthimos montou um quarto escuro improvisado no banheiro do seu hotel. Emma Stone ia até lá depois das filmagens e ajudava a revelar o filme, calibrando os químicos. Um dos diretores mais reconhecidos de Hollywood, revelando negativo num banheiro de hotel com a atriz principal. A exposição com as obras está aqui: Yorgos Lanthimos: Photographs | Exhibition | Onassis Foundation


Courtesy: Yorgos Lanthimos / MACK
Courtesy: Yorgos Lanthimos / MACK


Na mesma semana, o LACMA (importante museu norte-americano) inaugurou uma instalação do diretor de cinema mexicano Alejandro González Iñárritu (vencedor de Oscar) sobre o 25.º aniversário de Amores Cães. Iñárritu encontrou numa caixa azul esquecida fotografias nunca vistas do set, anotações à mão, storyboards. O material era tão intenso que uma introdução de três páginas virou uma reflexão de vinte.



Para a instalação, ele trouxe projetores de 35mm antigos garimpados de um cinema Regal de Los Angeles e fez a luz cortar uma névoa d'água, criando o que chamou de "esculturas de luz". Sobre os objetos físicos de um filme, os sapatos que os atores usaram, os vestidos, ele disse que lhe causam tristeza. "São como borboletas que um dia voaram e agora estão mortas."


Stanley Kubrick, from “Shoeshine Boy,” 1947. Copyright: © SK Film Archives/Museum of the City of New York
Stanley Kubrick, from “Shoeshine Boy,” 1947. Copyright: © SK Film Archives/Museum of the City of New York

Stanley Kubrick nunca precisou dizer isso em público, mas a biografia que estou lendo agora mostra como o fotojornalismo formou tudo que ele fez depois. As fotos que ele tirou nas ruas de Nova York nos anos 1940 e 1950 não eram exercícios de estilo. Eram uma ética. Você não fabrica o real. Você vai até ele, espera, encontra. Esse treinamento de olhar sem rede de proteção atravessou cada frame de 2001, de Barry Lyndon, do Iluminado. Um fotojornalista aprende que a imagem tem peso porque custou presença.



Também esta semana vi uma notícia de um projeto surreal: uma startup chamada Radioposter lançou o que chama de Paper-fi, livros físicos com trilhas sonoras sincronizadas que acompanham o leitor página por página em tempo real, sem chips no papel, sem QR codes. Visão computacional pelo celular detecta onde você está na leitura e toca o som correspondente, música, narração, ambiente, no seu ritmo. Os livros são pensados como objetos visuais, mais próximos de um livro de arte do que de um romance, onde imagem, sequência e som se constroem juntos no papel. A empresa quer dar ao analógico um superpoder que a tela ainda não tem: a experiência que tem bordas, que tem peso, que termina.




Mas tudo tem o outro lado. Os Irmãos Dor, uma produtora alemã, lançaram um curta de 15 minutos com Logan Paul e postaram no X com a legenda: "Fizemos um filme de 300 milhões de dólares com Logan Paul usando IA em menos de 7 dias. Sim, isso é 100% IA." Uma pessoa fez todos os visuais e a edição. Outra cuidou do som. Logan Paul gravou a narração final porque, segundo a produtora, o primeiro pass de IA era "surpreendentemente utilizável" mas eles quiseram "uma performance humana de verdade". O vídeo passou de um milhão de visualizações. A internet se dividiu. Joe Rogan disse que era incrível. Outros disseram que era lixo e que faltava expressão emocional, que parecia vazio. Dizer que o vídeo vale tanto dinheiro não deixa de ser marketing que faz barulho na internet e redes sociais. A expressão que mais apareceu nos comentários negativos foi essa: "parecia vazio."



Aliás, quanto a isso...do valor humano... existe uma pesquisa publicada na Scientific Reports que testou, em seis experimentos com quase três mil pessoas, como o público avalia arte quando sabe que foi feita por IA. O resultado foi consistente em todos os cenários: as pessoas desvalorizam a obra quando sabem que veio de IA, mesmo quando ela é visualmente idêntica a uma obra humana, mesmo quando um humano participou da criação. Mesmo quando elas próprias não conseguem distinguir as duas. Não é qualidade técnica. É o que as pessoas acreditam estar por trás do trabalho.


Isso não é preconceito irracional. É uma percepção muito antiga sobre o que a arte faz.

Quando você olha para uma fotografia de Kubrick tirada numa esquina do Bronx nos anos 1940, você não está só vendo aquele homem na esquina. Você está recebendo o olhar de alguém que decidiu estar ali, naquele frio, naquele ângulo, naquele instante, e apertar o botão. Há uma consciência do outro lado. Quando Lanthimos revela um negativo num banheiro de hotel com Emma Stone ao lado, ele está transformando o ato fotográfico num ritual compartilhado. Quando Iñárritu abre uma caixa esquecida e encontra imagens que ninguém viu por 25 anos, ele está reencontrando o rastro de decisões humanas tomadas num momento específico e irrepetível.


A arte não é o objeto. É a evidência de que alguém esteve lá.

O que o filme de IA de Logan Paul não tem não é resolução ou efeitos visuais. O que falta é a sensação de ter sido olhado de volta. Os 300 milhões de dólares citados são uma estimativa de custo de produção, não de valor. Essas são categorias completamente diferentes. Um diamante sintético tem a mesma composição química de um natural. Custa menos não porque seja tecnicamente inferior, mas porque o que as pessoas compram num diamante natural não é carbono. É tempo, pressão, origem.


O livro da Radioposter entende isso de um jeito interessante. A tecnologia que ele usa não está tentando substituir a experiência física do livro. Está tentando defendê-la, dar a ela algo que a tela não consegue replicar: o peso de um objeto que você segura, que tem começo e fim, que você precisa virar página por página no seu próprio ritmo. A tecnologia está a serviço do analógico, não o contrário.


A pergunta vai aparecer mais rápido do que parece: quando a IA gerar imagens, histórias e filmes indistinguíveis do trabalho humano, o que muda nessa equação? Provavelmente nada no coração dela. Porque o que as pessoas buscam numa obra não é perfeição técnica. É a sensação de que existe uma mente do outro lado que escolheu isso, que perdeu tempo com isso, que se importou de uma forma que só faz sentido para quem tem algo a perder.

Lanthimos no banheiro do hotel com os químicos. Iñárritu e a caixa azul esquecida. Kubrick esperando na esquina no frio. O livro que você precisa segurar para ouvir a trilha.


Então não se trata de nostalgia. E o que vai fazer sentido mesmo é a pergunta mais velha que existe na relação entre humanos: tem alguém aí?



Esse tipo de análise e visão é a linha do que abordamos e acreditamos nas minhas iniciativas.

Se você quer aprofundar essa conversa, entender os movimentos antes que virem ruído e posicionar seu trabalho com clareza em meio à IA, aproveite a oportunidade do dia 15.


Para refletir:


A arte feita por inteligência artificial tem menos valor?

Pesquisas indicam que o público tende a desvalorizar obras quando sabe que foram feitas por IA, mesmo quando não percebe diferença técnica.


Por que a fotografia analógica voltou a ganhar atenção?

Porque carrega processo, ritual e presença física. O valor está no percurso, não apenas na imagem final.


A IA vai substituir fotógrafos e cineastas?

A IA pode substituir processos técnicos. O que permanece humano é a intenção, a escolha e a narrativa.


O público realmente se importa com autoria?

Sim. Estudos mostram que a percepção de presença humana influencia diretamente a avaliação de valor.


O que muda para fotógrafos em 2026?

A técnica tende a se commoditizar. O diferencial será visão, contexto e posicionamento.

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