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Alyson Carvalho leva ao Foto Talks um convite ao segundo olhar

há 9 horas
4 min de leitura

Fotógrafo e artista visual de Belo Horizonte construiu parte da carreira na fotografia de casamento, passou por Londres e ampliou sua pesquisa para o retrato autoral e a fine art. No Foto Talks 20×20, parte da obra de Mário Quintana para discutir aquilo que pode escapar quando olhamos uma fotografia apenas uma vez.

O fotógrafo Alyson Carvalho. No Foto Talks, Alyson propõe olhar de novo para aquilo que parecia já visto.
O fotógrafo Alyson Carvalho. No Foto Talks, Alyson propõe olhar de novo para aquilo que parecia já visto.


Alyson Carvalho começou a estudar fotografia em 2009, em um curso básico na Escola de Imagem, em Belo Horizonte. No ano seguinte, passou a acompanhar o fotógrafo Zênio Souza como assistente em casamentos e iniciou uma trajetória profissional que o levaria a trabalhar durante anos nesse mercado.


Hoje, vive em Belo Horizonte, mantém bases também em Londres e Paris e concentra seu trabalho principalmente em retratos autorais e projetos de fine art. A mudança entre essas duas fases não aconteceu de maneira gradual. Segundo Alyson, ele decidiu deixar a fotografia de casamento quando vivia um dos melhores momentos profissionais naquele segmento.


A saída abriu espaço para uma mudança mais ampla. Em Londres, tornou-se sócio de uma agência de marketing, aprofundou os estudos em História da Arte e desenvolvimento artístico e passou a dedicar mais atenção à pesquisa que acompanha sua produção fotográfica.


Foto: Alyson Carvalho
Foto: Alyson Carvalho

Uma das consequências desse processo foi a exposição individual Raízes, ÁfricaBrasil, apresentada no Museu Inimá de Paula, em Belo Horizonte, em 2019. A mostra reuniu 21 fotografias e trabalhava questões ligadas à representação, cultura e identidade negra. O projeto ganhou posteriormente circulação internacional. Registros públicos da trajetória de Alyson apontam sua participação em exposições em diferentes países, incluindo Reino Unido, Itália, Canadá, Austrália, França e Estados Unidos.


Essa passagem da fotografia de casamento para uma produção mais ligada à pesquisa não eliminou o interesse pelo retrato. Mudou principalmente a maneira de construí-lo.

Alyson diz que não procura simplesmente mostrar algo a quem observa suas fotografias. Seu interesse está em criar condições para que a própria pessoa fotografada possa se reconhecer de outra maneira. Recursos recorrentes em seus trabalhos, como tintas, tecidos, fundos reduzidos e a retirada de elementos de distração, fazem parte dessa tentativa de deslocar a atenção da aparência imediata para a pessoa retratada.


Um retrato de Leila Lopes em Londres


Leila Lopes por Alyson Carvalho
Leila Lopes por Alyson Carvalho

Uma sessão realizada em Londres, em 2023, ajuda a compreender essa abordagem. Alyson receberia em seu estúdio Leila Lopes, angolana vencedora do Miss Universo em 2011.

Com o set preparado, ele fez um pedido antes de iniciar a sessão. Pediu que Leila fechasse os olhos, respirasse profundamente e avisou que começaria a fotografá-la em seguida.

O primeiro clique aconteceu antes que ela abrisse os olhos.


Alyson chama esse procedimento de “momento verdadeiro”, em uma referência deliberada ao conhecido “momento decisivo” associado a Henri Cartier-Bresson. Para ele, naquele instante havia a possibilidade de produzir um retrato anterior à construção consciente da pose.


A sessão não terminou de fato naquele primeiro disparo, mas aquela fotografia sintetizou o que ele procurava. Seu interesse, segundo explica, não estava em fotografar a Miss Universo, personagem que Leila poderia assumir imediatamente diante da câmera, mas encontrar algo da mulher que existia antes dessa representação pública.


“Se ela abrisse os olhos, iria posar como Miss”, resume Alyson ao explicar a escolha. A intenção era aproximar-se de Leila como pessoa, mãe e empresária, e não apenas reproduzir uma imagem pela qual ela já era reconhecida.


O episódio também ajuda a explicar por que seu trabalho recente se distancia da ideia de que um retrato deve apenas oferecer uma representação controlada e visualmente eficiente de quem está diante da câmera. Para Alyson, o processo também envolve retirar camadas e observar o que aparece quando determinados códigos do retrato são suspensos.


Foto: Alyson Carvalho
Foto: Alyson Carvalho

Foto: Alyson Carvalho
Foto: Alyson Carvalho


Foto: Alyson Carvalho
Foto: Alyson Carvalho

O segundo olhar


É justamente essa questão que ele pretende levar ao Foto Talks 20×20.


Sua apresentação parte de O segundo olhar, antologia de Mário Quintana organizada por João Anzanello Carrascoza. O livro foi construído a partir da ideia de que um novo olhar sobre aquilo que parece conhecido pode revelar aspectos que escaparam à primeira observação. A própria apresentação da obra pela Companhia das Letras destaca essa proposta de revisitar Quintana para recuperar dimensões menos evidentes de sua produção.


Alyson transporta essa ideia para a fotografia. Para ele, determinadas imagens e situações exigem mais tempo de observação antes que aquilo que realmente importa apareça. O primeiro olhar reconhece formas, pessoas e referências. O segundo pode revelar relações que não eram imediatamente visíveis.


Essa proposta também se aproxima de sua maneira de construir retratos. O que interessa não é apenas aquilo que a pessoa apresenta deliberadamente diante da câmera, mas o que pode surgir quando esse comportamento habitual é interrompido ou observado por outra perspectiva.



No Foto Talks, Alyson pretende discutir justamente essa possibilidade de rever uma imagem e encontrar nela algo que passou despercebido. Quando perguntado sobre o que gostaria que o público levasse de sua apresentação, respondeu de maneira simples: “parte do que vejo”.


O Foto Talks 20×20 reúne fotógrafos e profissionais da imagem em apresentações curtas construídas a partir de experiências, ideias e trabalhos desenvolvidos ao longo de suas trajetórias. Alyson Carvalho participa desta edição levando para o palco uma questão que atravessa sua própria produção: quanto de uma fotografia ainda pode permanecer escondido depois do primeiro olhar.


Alyson Carvalho


Foto Talks 20×20


O Foto Talks 20×20 acontece em 3 de novembro, às 20h30, com transmissão pelo YouTube.


A programação reúne profissionais de diferentes áreas da fotografia em apresentações de 20 imagens, propondo um panorama de experiências, ideias e caminhos que estão ampliando a atuação de quem trabalha com imagem.

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