Entre escuta e contenção de danos: o novo esforço da Adobe para reconquistar criativos
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Creative Collective, fim do custo dos créditos de IA no Firefly e aumento de verba publicitária apontam para uma estratégia clara diante da desconfiança e da concorrência

A promessa de produtividade infinita trazida pela inteligência artificial veio acompanhada de ruído, insegurança e uma sensação crescente de que as ferramentas estavam sendo pensadas mais para clientes e departamentos de marketing do que para quem vive da criação.
É nesse contexto que a Adobe começa a ajustar seu discurso (e suas decisões práticas) para 2026.
De um lado, a empresa anunciou o Adobe Creative Collective, uma iniciativa que reúne fotógrafos, designers, filmmakers e outros profissionais experientes para discutir, de forma aberta, como carreiras criativas estão mudando. A proposta não gira em torno de lançamentos ou novas funções de software, mas de processos, escolhas, expectativas e dilemas reais do trabalho criativo contemporâneo.

Não é uma ideia inédita. Marcas já criaram conselhos, coletivos e coisas deste tipo. O que chama atenção aqui é o enquadramento: menos promoção explícita, mais conversa. Menos “a tecnologia vai resolver”, mais “vamos falar do que está funcionando e do que ainda não faz sentido”.
Esse movimento, porém, não acontece no vácuo.
Nesse movimento de reconquista de confiança, a Adobe também anunciou uma mudança relevante no Firefly. Até 16 de março, novos assinantes do Firefly standalone passam a ter gerações ilimitadas de imagem e vídeo, incluindo modelos próprios e de terceiros. Não se trata do fim do modelo de créditos de forma estrutural, mas de uma janela estratégica de adesão, criada para reduzir fricção, manter criativos dentro do ecossistema e responder diretamente à pressão de concorrentes e à crescente desconfiança dos clientes.

Não se trata de altruísmo. Trata-se de estratégia. Diminuir barreiras, facilitar adoção e tornar a comparação com concorrentes menos desfavorável em um mercado cada vez mais disputado.
Há ainda um terceiro movimento, menos visível para o usuário final, mas igualmente revelador: o aumento da verba publicitária previsto para 2026. Falar mais, aparecer mais e reposicionar a marca passa a ser tão importante quanto lançar novas ferramentas. A disputa deixou de ser apenas tecnológica. Tornou-se narrativa.
Tudo isso acontece enquanto críticas mais duras seguem circulando. Textos defendendo boicote à Adobe, questionamentos sobre campanhas como “Skip the photoshoot” e alertas sobre a desvalorização do trabalho criativo continuam ecoando. Para muitos fotógrafos, designers e ilustradores, a confiança foi abalada e confiança, diferente de assinatura mensal, não se recupera automaticamente.
O ponto central não é decidir se a Adobe está certa ou errada. A leitura mais interessante é outra: a empresa parece ter entendido que o problema não é apenas oferecer mais IA, mas convencer os criativos de que ainda há espaço para autoria, intenção e valor humano dentro desse ecossistema.
Creative Collective, Firefly sem custo adicional e reforço de presença institucional apontam para uma tentativa clara de reposicionamento. A pergunta que fica em aberto é se isso será suficiente para reconstruir uma relação que hoje é, no mínimo, tensa.
Para quem vive da fotografia e da criação visual, talvez o maior desafio não seja escolher um software, mas entender como atravessar esse momento sem reagir por impulso... nem aderindo cegamente ao hype, nem se fechando completamente às transformações em curso.
Esse tipo de leitura de mercado, que conecta tecnologia, comportamento e posicionamento profissional, aparece com frequência nas conversas da comunidade Fotograf.IA + C.E.Foto, onde fotógrafos discutem como preservar valor, clareza e autonomia em um cenário cada vez mais instável.
Esses temas também fazem parte dos encontros ao vivo, nos quais a discussão vai além de ferramentas específicas e se concentra em decisões reais de carreira, modelos de atuação e estratégias para seguir relevante sem abrir mão da própria identidade.
O próximo encontro parte exatamente desse tipo de sinal da indústria para refletir sobre escolhas, riscos e oportunidades no cenário atual da fotografia.
A tecnologia segue avançando. A concorrência também. No meio disso tudo, a questão central permanece: quem define o valor da criação nos próximos anos... a ferramenta, o cliente ou o criativo que sabe se posicionar?



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