A fotografia está em baixa?

Recentemente entrevistei o fotógrafo Paulo Uemura e uma frase dita por ele me trouxe essa reflexão





"A fotografia não está mais tão em alta" foi mais ou menos essa a frase dita por Uemura em uma conversa recente. Paulo Uemura é fotógrafo, professor e autor do livro "posso viver de fotografia?" com vasta experiência como profissional e lecionando aulas em duas grandes escolas de fotografia (Senac e Panamericana).


A primeira pergunta que fica é: Você concorda com ele?


Os fatos que indicam que ele tem razão são vastos. A fotografia está em um momento de baixa em várias frentes. Palavras como banalização e outras aparecem nas conversas de grupos de redes sociais.


O que parece em alta mesmo é ser influenciador ou criador de conteúdo. Segundo dados recentes temos algo entre 10 e 15 milhões de "influenciadores" só no Brasil. Desde os pequeninos até os grandes. Curiosamente, esses mesmos "criadores" precisam de imagens de alta qualidade, coisa que um fotógrafo cria.


Uma pesquisa feita no passado mostrava que 1 milhão de brasileiros se diziam fotógrafos(as) nas redes sociais. Eu confesso que não atualizei esse levantamento, mas certamente não acredito que esse número tenha crescido muito desde a última vez que fiz essa pesquisa. Ainda assim, é um dado que mostra a força e potencial desse mercado. Poderia ser bem maior, acredito que sim.


A fotografia está em baixa? Ou sempre encarou desafios para impor seu valor? Hoje, virar fotógrafo já não é tão simples assim. Embora a barreira de entrada continue baixa, os valores envolvidos não são brincadeira em termos de investimento. Tem o custo do equipamento (que não barateou, muito pelo contrário), cursos, ferramentas online e site, seguro, computador, HDs e por aí vai. Mesmo o mercado de equipamentos usados deu uma aquecida e encontrar câmera boa de segunda mão com boa relação custo-benefício não é tão fácil assim.


A fotografia está em baixa? em uma live super recente sobre marketing promovida por mim o comentário: "vivemos na era da saturação das imagens". A quantidade de gente criando fotos e vídeos na verdade não parou de crescer. Um dos mercados mais aquecidos e com demanda é justamente de fotos para e-commerce, um segmento aquecido tanto aqui quanto lá fora. Tão forte, que surgiram empresas de dois tipos: uma que cria versões 3D hiper-realistas para atender empresas recriando seus produtos dessa maneira. E outras que surgiram são dos estúdios robôs que atuam na criação das fotos com ou sem assistência humana.


Ainda assim, existe um mercado aquecido de fotos de produtos criadas por fotógrafos. E eles nunca trabalharam tanto.


As pessoas não deixaram de casar, de ter filhos e de celebrar eventos e momentos. A verdade é que talvez queiram mais ainda poder relembrar esses momentos. Quem vai cuidar disso? profissionais.


Temos um problema de marketing generalizado? Sim. A autoestima do negócio da fotografia está em baixa? provavelmente. Talvez a culpa seja da crise econômica, talvez dos próprios fotógrafos. Explico: não temos uma unidade de esforço pela causa "fotografia" e um propósito coletivo de valorização do ofício. Não temos uma orientação geral que mostre o valor da fotografia seja na impressão ou na captura.


Temos ações de uma parcela dos fotógrafos e fotógrafas tentando mostrar valor da fotografia para as pessoas. Porque vale contratar um profissional e sua importância. É válido pois é uma forma de mostrar a função da área: somos o último bastião das memórias das pessoas. Mas parece que esquecemos disso o tempo todo.


Algumas empresas fazem de tempos em tempos ações de valorização. São trabalhos isolados e de formiguinha que certamente ajudam, mas sem a força necessária para uma valorização de fato. A verdade é que fazer um movimento de marca nesse universo é inviável.


A fotografia está em baixa? sim, ao menos na questão do esforço coletivo. Na média, fotógrafos e fotógrafas vendem preço e vão para apelos racionais na hora de vender serviços. Agem de forma fria e direta em relação a um negócio 100% emocional. E somos agentes que atuam de forma solitária e cada um por si e Deus por todos. E ok, pois temos que sobreviver. Só que daí não tem milagre...na média o movimento geral é mais voltado para a desvalorização do que qualquer outra coisa. Por quê? Justamente porque a fotografia digital leva a tendência de ofertas de serviço ao menor valor possível. O reflexo disso vemos nos pedidos de orçamento via WhatsApp com foco em leilão de preço e com aquela famosa frase: "vou falar com a esposa/marido" e nunca mais retorna. Ou melhor, retorna para quem oferecer o menor valor possível.


Qual a alternativa? Seria um mundo utópico de fotógrafos e fotógrafas e empreendedores desse mercado atuando em conjunto com alguma parte da divulgação voltada para a valorização. Ou seja, todos, mesmo individualmente mostrando esse valor em algum momento do trabalho. Uma área do site, uma postagem nas redes sociais, um vídeo e naquela conversa ou contato com cliente...para dizer: "entenda porque o que eu faço é importante para você".


E por fim vem o pensamento: o que os consumidores estão contratando de fato? A teoria dos trabalhos indica que as pessoas compram algo talvez de maneira distinta do que imaginamos. Elas não compram um álbum, mas um jeito de poder relembrar o momento. Elas quase sempre não vão contratar algo porque "sua foto é incrível". Elas compram status (se é uma obra de alguém conhecido) ou compram vaidade (delas). Os heróis das histórias que nós clicamos não somos nós, mas sim os clientes.


Todo mercado sempre tem os que se destacam. Aquelas 20 ou 30% de um ramo que vão bem e faturam. Talvez você seja um deles. A grande questão é: vale a pena ficar isolado como "case" quando outros puxem tudo para baixo em termos de valor? E sobretudo: até quando dá para se manter assim quando tudo está nivelando por baixo. A analogia que vem na cabeça é da última Blockbuster do mundo (ainda existe uma locadora de DVDs aí perto de você?). Vale a pena ser o último? Ou é melhor crescer junto com os outros em um mercado de alto nível?


O grande problema do negócio da fotografia é a autoestima? Trata-se de um negócio que lida com algum grau de sentimento, a mercadoria é quase sempre emoção. O movimento que vimos no mercado nos últimos anos foi contrário a essa direção. Vendendo tamanhos, recursos, prêmios ou colocando clientes dessas histórias fotográficas como coadjuvantes das próprias jornadas. Um paradoxo do mercado é o combustível que é parte do problema, a vaidade move os profissionais (na média) e isso também pode ser parte do desafio.


Para colocar a fotografia em alta de novo teremos que mudar a narrativa.


Concorda? deixe seu comentário.


A propósito, duas iniciativas minhas certamente tem foco na valorização da fotografia. NFoTo é voltado para a nova fase de valor do mercado (graças a mais uma mudança tecnológica inexcapável). E o Plano de Marketing da Fotografia 2023 tem foco claro na diferenciação como base para valorizar cada negócio de fotografia.

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